“A sexualidade é um conjunto de fenômenos ligados a sexo” (Houaiss). E esses fenômenos observados à luz da fé podem ser classificados como ordenados e desordenados. Sendo assim o casal cristão precisa estar atento para não permitir que tais desordens venham a fazer parte da vivência de sua sexualidade, pois são chamados a vivê-la de modo sadio e humano. E hoje são muitas as ameaças à santidade do casal nesta dimensão. Entre a mais difundida está à pornografia, que tem feito tanto mal ao matrimônio, e também muitos métodos que impedem o ato conjugal de estar aberto ao dom da vida.

Pois quando um casal permite esta desordem dentro do seu relacionamento os dois ficam reduzidos a meros instrumentos de prazer, privando a vivência da sexualidade, e mais concretamente o ato conjugal, de sua santidade e espiritualidade próprias. Pois na visão cristã o ato conjugal entre os esposos não e um ato animalesco, pois está revestido também de uma espiritualidade, é humano e espiritual, quando vivido de forma ordenada. Por isso o quarto do casal é um lugar sagrado, e como seria bom se fossem expulsos deles a TV, a internet, que tanto tem invadido e influenciado negativamente a vida conjugal do casal.

Neste aspecto é iluminadora a oração de Tobias junto com sua esposa na sua primeira noite de núpcias: “Ela se levantou e começaram a orar e a pedir para obterem a salvação. Ele começou dizendo: ‘Bendito sejas tu, Deus de nossos pais, e bendito seja teu nome por todos os séculos do séculos! Bendigam-te os céus e tua criação inteira em todos os séculos! Tu criaste Adão e para ele criaste Eva, sua mulher, para ser seu sustentáculo e amparo, e para que de ambos derivasse a raça humana. Tu mesmo disseste: não é bom que o homem fique só; façamos-lhe uma auxiliar semelhante a ele. E agora, não é por desejo impuro que tomo esta minha irmã, mas com reta intenção. Digna-te ter piedade de mim e dela e conduzir-nos juntos a uma idade avançada!’ E disseram em coro: ‘Amém, amém!’ E se deitaram para passar a noite” (Tb 8, 6-9).

Como é edificante quando o esposo e a esposa veem um ao outro não como mero objeto de prazer, mas são conscientes de sua dignidade de pessoa, de filho e filha de Deus. Ademais é preciso ressaltar que a sexualidade não se reduz ao ato conjugal, ela se estende ao carinho, a ternura, amizade, o cuidado um com o outro. O casal precisa redescobrir essas dimensões da sexualidade que às vezes ficam tão esquecidas, por terem sido obscurecidas por uma busca insana de prazer.

Há um prazer legítimo dentro do ato conjugal: “’Os atos com os quais os cônjuges se unem íntima e castamente são honestos e dignos. Quando realizados de maneira verdadeiramente e dignos. Quando realizados de maneira verdadeiramente humana, significam e favorecem a mútua doação pela qual os esposos se enriquecem com o coração alegre e agradecido’. A sexualidade é fonte de alegria e de prazer” (CCE, 2362).

O casal que não descobre essas dimensões da sexualidade terá sérias dificuldades para viver a fidelidade nas circunstâncias em que uma das partes estiver impedida do ato conjugal, por exemplo, na ocasião de uma enfermidade. É preciso também lembrar que há uma fase do matrimônio, à medida que os anos vão se passando, que o ato conjugal já não ocupará mais um lugar de importância, até mesmo porque o vigor físico vai se esgotando com o tempo. E quando esta fase chegar, que outros valores poderão sustentar aquele matrimônio? Aqui se apresenta como é importante entender a sexualidade de modo amplo, pois o casal que está impedido, por uma razão ou outra, do ato conjugal não deixou de viver a sexualidade expressada através da amizade, da ternura, do carinho, e do cuidado recíproco.

Entendida deste modo a sexualidade é uma dimensão realmente bela do ser humano, fonte de graça e realização. É uma força vital que se vivida de forma ordenada pode trazer muita realização, mas, se vivida de forma desornada, gera muitas dores e feridas. Por isso preciso vive-la com reta intenção. Esta reta intenção faz que o cônjuge no ato conjugal e nas outras dimensões da sexualidade não buque o seu prazer, seus interesses, mas está preocupado em cuidar do outro, não em explorar o outro. Pois mesmo, dentro do matrimônio pode existir a exploração sexual, quando o outro não importa, e fica reduzido há um mero objeto.

Para bem viver de modo humano e espiritual a sexualidade é preciso formá-la e ordená-la pela virtude da castidade, princípio integrador da “unidade interior do homem em seu ser corporal e espiritual” (CCE, 2337). A virtude da castidade dá à sexualidade a transparência que ela precisa ter, para ser fonte de realização para o ser humano.

Por fim, é preciso lembrar que o ato conjugal deve sempre resguardar dois aspectos essenciais, o unitivo e procriador. Pelo aspecto unitivo esposo e esposa se doam sem reservas um procurando a realização do outro gozando de um prazer legítimo. E esta união está aberta a comunicar o dom da vida, dimensão procriativa, não é um amor fechado em si mesmo, egoísta. “Salvaguardando estes dois aspectos essenciais, unitivo e procriador, o ato conjugal conserva integralmente o sentido de amor mútuo e verdadeiro e sua ordenação para a altíssima vocação do homem para a paternidade” (CCE 2369). Assim, qualquer recurso artificial que vise privar o ato conjugal de sua capacidade e possibilidade de gerar vida é intrinsecamente mal (contracepção, preservativo, DIU, e outros). (cf. CCE 2370).

Por Pe. Hélio Cordeiro