O papa Francisco escolheu para o 49º Dia Mundial das Comunicações Sociais o tema: “Comunicar a Família: ambiente privilegiado do encontro na gratuidade do amor”. Soa como que profética esta temática para os nossos tempos. O meio familiar é marcado fortemente pela comunicação. No lar é que o ente adquire os primeiros e mais valiosos ensinamentos que guardará na sua vida.  Na família o homem forma-se, ali ele é colocado diante da realidade do viver em comunicação. Na Igreja Doméstica é onde se comunica o dom precioso da fé e das virtudes, que devem ser trabalhadas todos os dias na vida cotidiana. E tudo isso o homem recebe de forma livre, gratuita e amorosa.

Recordo-me uma pergunta que costumeiramente escutamos em nossos encontros com conhecidos: “E a família como vai?”. Parece um pergunta simples e direta, mas pensemos na profundidade deste questionamento para nossos tempos. Quando refletimos além das paredes de nossos lares, ela pode ter dimensões positivas e negativas. Estes são tempos em que constantemente ela, a família é atacada e “recriada”, baseada em ideias convenientes ao pensamento de cada um. Pensa-se a família hoje de muitos modos, entretanto, raramente como ela é de fato, ao passo que os modos como pensam a família não condizem com aquilo que ela é.

A família é o santuário criado por Deus para habitar a Igreja Doméstica. A família é aquela que comunica, e não falo aqui de uma comunicação meramente tecnológica, tecnicista, baseada em meios, mas a comunicação mais valiosa, primeira e mais profunda comunicação que o homem pode acolher: a vida. É na família que somos gestados para comunicar. No lar aprendemos as primeiras palavras, o velho “pode e não pode”, os conselhos mais valiosos e as virtudes mais elevadas. No seio da família somos moldados e formados. Nossos pais nos educam e devem ser eles os primeiros formadores. Isso é o maravilhoso e rico dom da comunicação familiar. A maior beleza de todos estes elementos citados é que todos eles são doados, dados de forma gratuita para nós. O dom do amor que emerge dos nossos e comunica também o amor de Deus. Por isso demostra-se tão necessário que cada membro da família saiba dar e receber amor: somos sinais, comunicadores do amor gratuito e livre de Deus.

Em tempos como este precisamos redescobrir este dom tão singular da comunicação familiar. É certo que o meio em que a família está inserida passou por diversas e notáveis transformações. Precisamos retomar “antigos hábitos”, que nunca deveriam ser antigos, entretanto sempre constantes no ambiente familiar. Não podemos deixar morrer os momentos familiares da partilha na mesa, do encontro de cada dia, das alegrias e tristezas. Redescobrir a riqueza dos momentos de lazer e diversão em família. A preciosa e rica construção que emerge do diálogo em família, dos momentos sinceros que só podem ocorrer quando cada um coloca seu coração dentro do lar, e decide ser parte total daquele conjunto. Quando os pais tomam parte do valoroso encargo da correção e da formação dos filhos, e também os filhos colocam-se abertos para isso.

Esses momentos, ditos familiares, não podem ser reduzidos aos meios técnicos e tecnológicos que o mundo hoje nos oferece. Eles possuem sua importância. Eles são de fato ricos meios de aprofundamento do encontro, entretanto nada pode superar em grandeza o contato humano que está na vida família. Em tempos de WattsApp, uma visita é uma grande prova de amor. Parece exagero, mas percebemos o distanciamento das pessoas em vista de meios de comunicação que deveriam ser formas de proximidade. Criam-se grupos de família em mídias, no entanto se empobrece o contato humano. Os meios devem ser usados para estreitar, jamais para suprir o ambiente familiar, para isso ainda são insubstituíveis os almoços em família aos domingos. O Francisco com sua mensagem para este Dia Mundial das Comunicações faz um convite: deixem os celulares por um instante, saiam dos computadores por um momento e liguem vossos abraços, vossos corações ao coração do outro. É tempo de uma comunicação do corpo a corpo. Trabalhemos para que nossas famílias sejam celeiros da vida comunicada e vivida no encontro, para que ao surgir da pergunta: “E a família, como vai?”, possamos sem medo responder: “Vai bem, obrigado!”.

Por Seminarista Raifran Sousa, Coordenador do Departamento Diocesano de Comunicação