O homem foi criado para a felicidade. No mais profundo de seu ser, sente uma inclinação que envolve todos os seus dinamismos e o leva a desejar naturalmente a vida feliz. O Catecismo afirma que “A doença e o sofrimento estiveram sempre entre os problemas mais graves que afligem a vida humana. Na doença, o homem experimenta a sua incapacidade, os seus limites, a sua finitude. Qualquer enfermidade pode fazer-nos entrever a morte.” (n.1500).

Com efeito, o sofrimento pertence, por sua vez, de alguma maneira, à essência natural do homem, dada sua condição limitada e contingente. São compatíveis o sofrimento e a felicidade? Pode-se ser feliz e encontrar-se afundado na dor do sofrimento?

Não é fácil encontrar uma resposta para isso. A sociedade moderna utilitarista silencia, melhor, suprime a pergunta sobre o sentido do sofrimento. Seu esforço se concentra em evitar ou diminuir a dor, evitando, em todo caso, sua interpretação. Com essa mentalidade, ao homem só resta a resignação, aceitar que não se pode mudar ou suicidar-se.

Na história da Igreja, diversos foram os testemunhos de santidade forjada no sofrimento. Muitos deles diziam que a vida nesta terra consistia em “amar e sofrer”. Amar a Deus, sofrendo com Ele e por Ele é uma das mais belas formas de alcançar a santidade.

O mistério do sofrimento não pode ser compreendido profundamente somente pelas forças da razão humana. Responder a este mistério só pode ser respondido de maneira plena e adequada a partir de Cristo. A resposta da cruz sobre o sentido do sofrimento é completada pela eloquência da Ressurreição. Se pelo pecado entrou o mal e a morte no mundo, pela morte de cruz de Cristo vieram a Ressurreição e a vida. Esta perspectiva produz uma luz que permite vislumbrar uma nova dimensão da dor e da enfermidade – também da morte – como integrantes da vida e da vocação do homem. A descoberta do sentido salvífico do sofrimento é fonte de paz e alegria espiritual.

Jesus, o Verbo Eterno do Pai, Verdadeiro Deus e Verdadeiro Homem, teve uma vida do início ao fim marcada pelo sofrimento. A própria Encarnação e a Sua Vinda ao mundo foi uma “paixão”, que se estendeu por toda a Sua Vida e teve seu ápice na Cruz. Jesus, ao sofrer por nós, diviniza o sofrimento, fazendo dele para nós tábua de salvação. E nós também como membros do seu Corpo Místico, podemos associar-nos ao sofrimento do Salvador para continuar a obra de Salvação da Humanidade.

Evidentemente, o sofrimento pode ser uma ocasião de amadurecimento humano. Os cristãos estão chamados a ter uma contribuição muito eficaz na aplicação da Redenção.  O sofrimento, as enfermidades e as limitações da nossa condição humana podem dar lugar a uma fecundidade espiritual tão extraordinária que o enfermo pode dizer com verdade: “… completo na minha carne o que falta à Paixão de Cristo, em favor de seu corpo, que é a Igreja.” (Cl 1,24).

Sem. Ozias Xavier

Referências/Leitura recomendada:

TANQUEREY, Adolphe. A Divinização do Sofrimento: Cultor de Livros.