Conhecemos a Deus porque Ele se deu a conhecer

Uma das maiores inquietações humanas é o desejo de conhecer Deus, assim como a tendência do rio é correr para o mar. Por isso, encontramos na história uma multiplicidade de religiões, que são o resultado desta busca incessante do homem, que quase sempre desembocou na idolatria. Pois, por si mesmo, o homem não poderia vir a conhecer a Deus.

O ponto mais alto que podemos chegar com o nosso esforço é o de reconhecer e justificar a existência de Deus. Porém, conhecê-Lo na sua essência somente foi possível porque Ele nos deu a conhecer mediante a Revelação. Cujo ponto cume é a encarnação do Verbo (cf. Hb 1, 1ss). Ou seja, somente podemos conhecer a Deus porque Ele nos deu a conhecer enviando ao mundo a Palavra da verdade – Jesus Cristo – e o Espírito santificador, Aquele que nos “conduzirá à plena verdade” (Jo 16, 13). Assim, a verdade sobre Deus e sobre toda a realidade criada, não é uma conquista do homem, mas dom de Deus pelo Espírito. É claro que a ciência pode esmiuçar o funcionamento interno do cosmo, suas leis, sua evolução, mas não pode nos dizer quem é Deus, nem o porque da existência da realidade Criada.

Somente Deus pode nos dizer quem Ele é e porque existimos. Ele nos revela que na sua essência é Amor: “porque Deus é amor” (Jo 4, 8). Quem é amor ama e é amado. O Pai ama o Filho no Espírito Santo. Ao nos criar e ao revelar-se em Jesus Cristo nos insere na experiência deste amor eterno: “Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele quem nos amou e enviou-nos o seu Filho…” (IJo 4, 9).

Esta dinâmica eterna de amor nos revela o rosto TriUno de Deus. De Deus que é amor, que é Trindade, que é Unidade, que é Comunhão. Deus que “Com vosso Filho único e o Espírito Santo sois um só Deus em um só Senhor. Não uma única pessoa, mas três pessoas num só Deus” (Prefácio). Deus é Trindade.

O Deus TriUno se revela completamente distinto das suas criaturas, inconfundível com as forças da natureza e com os seres idolatricamente endeusados pelo homem. O Deus UnoTrino sacia a grande inquietação do homem de conhecer o seu Criador. Quebrando a lógica das religiões e do ateísmo moderno, para os quais é o homem quem cria a Deus. Enquanto que na revelação trinitária compreendemos que é Deus que cria e salva o homem.

Conhecendo Deus que se fez conhecer o homem encontra sua mais elevada vocação – a glorificação de Deus. Existimos por uma razão eterna de amor e para glorificar a Deus. Como afirmou santo Irineu: “A vida do homem é para a glória de Deus. E glória de Deus é o homem vivo”. O homem goza da predileção de Deus: “Senhor que é o homem, para dele assim vos lembrardes e o tratardes com tanto carinho” (Sl 8, 5). Deus se lembra do homem. Aqui entenda-se lembrar como sinônimo de amor, de cuidado.

Podemos nos esquecer de Deus, optando por seguir a via absurda do ateísmo, ou a via obscura dos deuses fabricados por nossas mãos – a idolatria; ou ainda a cômoda via do indiferentismo. Mas Deus não se esquece de nós. “Por acaso uma mulher se esquecerá da sua criancinha de peito? Não se compadecerá ela do filho do seu ventre? Ainda que as mulheres se esquecessem eu não me esqueceria de ti” (Is 49, 15).

Por fim, podemos com nossa ingratidão esquecer-nos de Deus, mas Ele não se esquece de nós. Quando nos esquecemos de Deus, consequentemente vamos perdendo a capacidade de amar, se esvazia a nossa dignidade. Esquecer-se de Deus é esquecer quem somos, filhos no Filho, santificados pelo Espírito para podermos nos dirigir a Deus como Pai. A Trindade habita em nós para que um dia possamos habitar em Deus.

Pe. Hélio Cordeiro dos Santos
Formador do seminário maior N. S. de Fátima
Brasília – DF