“todos nos bebemos de um único Espírito” (ICor 12, 13)

            Com a solenidade de Pentecostes os mistérios pascais chegam à sua plenitude com o dom do Espírito Santo a toda a Igreja. Para que ela possa continuar no mundo a obra de reconciliação iniciada e levada a termo por Jesus Cristo. É o Paráclito que conduz a Igreja nesta sua missão, é Ele quem lhe recorda e ensina toda a verdade. É Ele quem promove e sustenta a comunhão na Igreja e de todos os fiéis entre si. Somos diversos, porém, “todos nos bebemos de um único Espírito” (ICor 12, 13), para que possamos caminhar na mesma fé, seguindo o mesmo e único Jesus Cristo e Senhor Nosso.

É o Espírito Santo que santifica a Igreja e todos os seus fiéis, para que possam se tornar agradáveis a Deus. Conferindo-lhes os seus dons: sabedoria, entendimento, ciência, conselho, fortaleza, temor de Deus e piedade. A ação do Paráclito pede a disponibilidade do homem para que não falte na Igreja os carismas, os ministérios, as atividades necessárias para a reconciliação do mundo.

Como a Igreja precisa de fiéis e pastores disponíveis para o serviço do Evangelho! Dóceis à ação do Espírito Santo, que edifica a Igreja. Fiéis e pastores que não sejam movidos por caprichos ou por interesses pessoais, mas movidos pelo Espírito Santo e desejos de continuar no mundo, cada um segundo seu carisma, seu ministério, sua vocação, a obra de reconciliação que Jesus Cristo confiou à sua Igreja.

Talvez o que falta em nossas paróquias, movimentos, dioceses, comunidades, não sejam pessoas disponíveis, mas pessoas que sejam disponíveis para fazer e servir a Igreja naquilo que ela precisa. Quantos leigos e pastores, revestidos de abundantes dons e carismas, mas que não realizam bem algum na vida da Igreja nem dos irmãos. Simplesmente porque lhes falta a docilidade para fazer o que a Igreja precisa, enquanto insistem em fazer o que sua conveniência pessoal determina. Permitamos que o Espírito, doador de todos os dons, conduza-nos no serviço ao Evangelho e à Igreja, não nossos caprichos humanos.

Neste sentido, é preciso deixar que o Espírito Santo nos faça renascer para Deus. Para que sejamos servidores de Deus no Espírito. Permitindo que Ele transforme a nossa mentalidade, nos arranque do comodismo e faça suas testemunhas, servidores do Evangelho.

É ainda o Espírito Santo que nos ajuda a reconhecer o senhorio de Jesus Cristo sobre nossas vidas, sobre o mundo, sobre a história. Deste modo, o Espírito nos faz verdadeiramente livres, porque aquele que submete sua vida e sua vontade à Jesus Cristo, não se deixa escravizar por nada.

É também o Espírito que dá a conhecer o verdadeiro Deus. Sem abertura à ação do Paráclito muito facilmente nos deixamos escravizar pelos deuses mortos, pelos ídolos. Que em todos os tempos usam os mais diversos disfarces, inclusive usado a roupagem de religião cristã, quando na verdade cultua um deus falso, quebra-galho. Provedor das ambições humanas de poder e de riqueza. Que não corresponde ao Deus que nos foi revelado em Jesus Cristo. Quantos que aderem a seguimentos religiosos simplesmente sob o argumento de que se sente bem. Isto revela um profundo desprezo pela redenção que Jesus Cristo realizou com o seu sacrifício na Cruz.

O Senhor não se entregou na Cruz para nos oferecer uma religião sentimentalista, cujo fim é fazer as pessoas se “sentirem bem”. Ele se entregou na cruz para nos dar a salvação, o perdão dos pecados, a graça da reconciliação: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não os perdoardes, eles lhes serão retidos” (Jo 20, 21).

Do que adianta alguém seguir uma religião que lhe faz “sentir bem”? Quando esta não adora o Deus verdadeiro revelado em Jesus Cristo? Ou quando a pessoa em questão se sente afetivamente bem, mas não está reconciliada com Deus e com o próximo, porque sua vida está dominada pelo pecado, pela ambição ou outros interesses mesquinhos. O “mercado religioso” está cheio de religiões que fazem as pessoas se sentirem bem, mas que não anunciam o verdadeiro Deus, nem a conversão, nem o perdão dos pecados, nem a graça de Deus.

Por fim, é o Espírito Santo que realiza a comunhão na Igreja e no gênero humano. Fomentar o espírito de divisão, de isolamento na Igreja é contristar o Espírito de Deus que habita em nós, do qual todos nós bebemos. Enquanto que empenhar-se sinceramente para superar as divisões, para promover a comunhão, é sinal de docilidade ao Espírito que quer realizar na Igreja e no mundo aquilo que Cristo realizou: “…para que sejam um, como nós somos um” (Jo 17, 23). A comunhão na Igreja e no mundo, se constrói com docilidade à ação do Espírito, não com discursos ou tratados humanos.

Pe. Hélio Cordeiro dos Santos
Formador do seminário maior N. S. de Fátima
Brasília – DF