“Acaso não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus mora em vós?” (ICor 3, 16)

Amados irmãos e irmãs, hoje em comunhão com toda a Igreja celebramos a Dedicação da Basílica do Latrão: “A igreja mãe de todas as igrejas da Urbe e do Orbe”, sinal de comunhão para toda a Igreja. E dentro desta liturgia emerge a imagem do templo como lugar da habitação de Deus. E a Palavra vai mais adiante ao identificar o templo de Deus com o ser humano: “Acaso não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus mora em vós?” (ICor 3, 16).

Quando uma comunidade constrói a sua igreja, procura fazê-lo da forma mais bela possível para ser sinal visível da presença do sagrado, morada de Deus entre os homens. Um lugar que por si mesmo convida os homens a se prostrarem diante de Deus em oração. Embora, é preciso dizer, que grande parte de nossas igrejas perderam na sua forma e na sua arquitetura os elementos e beleza sagrada que por si só fazem sentir e perceber que ali é um lugar privilegiado do encontro com Deus.

E podemos dizer que este mesmo empobrecimento que ofuscou a presença do sagrado em nossas igrejas, em nossos templos, encontra o paralelo num outro templo santo – o ser humano. Parece que a mesma decadência que esvaziou o sentido sacral de nossas igrejas, tem repercutido também na vida de muitos batizados, cuja aparência já não se assemelha mais ao templo de Deus. Antes a escravos das artimanhas do demônio.

A Palavra está diante de nós para não nos deixar esquecer: “Vós sois construção de Deus” (ICor 3, 9). Um templo construído não por mãos humanas, no qual Deus quer habitar. É Deus mesmo que realiza no ser humano a santidade necessária para torna-lo templo santo de Deus. E se nosso corpo é templo de Deus, construção de Deus, temos que evitar dois extremos: o desprezo do corpo como algo negativo ou seu endeusamento, a chamada obsessão pelo corpo perfeito, pela própria imagem, que para muitos tornou-se um verdadeiro culto.

Quantos tem destruído este templo com vícios de toda ordem, ofuscando em si a imagem e semelhança de Deus. O uso disseminado de drogas, a banalização da sexualidade, a exposição despudorada do corpo, a violência contra o semelhante, os homicídios, a escravidão e exploração do outro em vista de vantagens econômicas. Realidades que tem causado tanta morte, e produzido seres humanos desfigurados de sua própria humanidade. São todos sinais do desprezo com o templo sagrado de Deus que é cada pessoa humana.

No outro oposto, se encontra a busca desesperada pelo corpo perfeito, sarado para serem expostos como cartão postal no perfil do Facebook, para os que são anônimos, e nas capas de revistas para os que são famosos. E assim se apresentam como os modelos a serem seguidos e reproduzidos. De nada adianta um corpo sarado com uma alma doente, distante de Deus. Músculos avolumados, tatuados, e vistosos, corpo definido, com coração medíocre, vazio e pequeno. Fruto desesperado do ser humano que quer construir-se a si mesmo a qualquer custo como sua imagem e semelhança. Se esquecendo que não somos construção nossa, mas “construção de Deus” e que o que construímos dura muito pouco. Só o que Deus constrói dura para sempre. Se cuidássemos da nossa alma e do nosso coração com a mesma obsessão com a qual às vezes cuidamos do corpo, certamente teríamos, menos gente deprimida e infeliz.

Por fim, o Senhor nos chama ao equilíbrio. O cristão não se deixa escravizar nem pelo desprezo, nem pelo endeusamento. Deus já chamou cada pessoa à vida com a dose justa de beleza. Beleza em sentido amplo. Uma beleza interior, alicerçada pela presença de Jesus Cristo, manifestada exteriormente num jeito sóbrio de ser, de sorrir, de se vestir, de se divertir. Pois o principal adorno do cristão é o próprio Jesus Cristo e o Espírito Santo que nele habita.

Pe. Hélio Cordeiro