“Ao Senhor eu peço apenas uma coisa, e é só isto, que eu desejo: habitar no santuário do Senhor por toda a minha vida” (Sl 26)

Amados irmãos e irmãs, hoje a Igreja nos convida a lembrar e rezar pelos fiéis defuntos, não para nos lembrar da morte, pois a celebração de hoje é, sobretudo para nos lembrar da vida, não desta vida, mas da vida que não passa, a vida eterna, a vida imortal. A celebração de hoje é um convite para olharmos sempre para o ressuscitado, para que olhando para ele renovemos em nós a esperança da ressurreição futura que nós esperamos.

Cada domingo professamos a nossa fé dizendo: “Creio na ressurreição da carne e na vida eterna”. Esta é uma verdade de fé que é objeto da nossa esperança cristã. E como tal é uma realidade que ainda esperamos. Mas o fato de ser algo para o futuro, não é uma verdade dissociada da nossa vida presente. Pois somos chamados já agora a moldar nossa vida e interpretar os acontecimentos da história segundo esta verdade.

De modo que crer na vida eterna, na vida imortal, na ressurreição, tem implicações imediatas na vida presente. Sobretudo, esta verdade nos ajuda entender que qualquer bem deste mundo, qualquer prazer, qualquer satisfação, são realidades incompletas. Não podem saciar o desejo mais íntimo e profundo que cada pessoa trás dentro de si, que é o desejo de ver a Deus. Isto nos torna livres diante das coisas, atitude tão importante para não sermos engolidos pelo consumismo.

Se não compreendemos isso, nos tornamos verdadeiros escravos, das coisas, das realidades imediatas. E como a falta de confiança nesta verdade tem tornado o homem escravo do mundo. Pois se nosso olhar não está voltado para Deus, para a vida futura, gastamos toda nossa vida querendo saciar um desejo infinito com coisas que são finitas, corruptíveis. Assim, o desejo permanece sempre em aberto, porque só a visão de Deus pode preenchê-lo plenamente.

Precisamos aprender com o salmista a pedir: “Ao Senhor eu peço apenas uma coisa, e é só isto, que eu desejo: habitar no santuário do Senhor por toda a minha vida” (Sl 26). É este desejo que deve mover a nossa vida, desejo de ressuscitar para viver e contemplar a face de Deus. “Se, pois, morremos com Cristo, cremos que também viveremos com ele” (Rm 5,8), “Pois esta é a vontade do meu Pai: que toda pessoa que vê o Filho e nele crê tenha a vida eterna” (Jo 6, 40).

Qual o desejo mais profundo que tem influenciado sua vida, suas escolhas? É preciso cuidar para não deixar os desejos secundários, passageiros, apagar em nosso coração o desejo fundamental de querer ver Deus: “Eu sei que o meu redentor está vivo e que, por último, se levantará sobre o pó; e depois que tiverem destruído esta minha pele, na minha carne, verei a Deus” (Jo 19, 25-26). Partindo desde desejo fundamental de ver a Deus é que devemos organizar a nossa vida presente. Aqui é preciso parar e refletir um pouco: Minha vida está organizada, orientada segundo a realidade de alguém que espera a ressurreição, que quer ver a Deus?

Por fim, a ressurreição é dom de Deus: “E eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6,40). É Cristo que nos ressuscitará, é Ele quem nos dá a vida, ele é a vida. A ressurreição é completamente distinta da falsa ideia de reencarnação que é vista como um ciclo natural e sucessivo de vidas que realiza uma purificação do espírito, tornando-o cada vez mais livre das amarras do corpo, numa espécie de platonismo. A ressurreição, pelo contrário, contempla o homem todo, seu corpo é templo do Espírito Santo e está destinado à ressurreição. Não uma superação do corpo é uma glorificação do mesmo em Jesus Cristo para uma única vida que não passa. Pois em Cristo não temos sucessivas vidas, mas temos a Vida Eterna.

Pe. Hélio Cordeiro