“O Senhor escolheu… e os enviou dois a dois” (Lc 10, 1)

            Tornar-se discípulo de Jesus Cristo é o resultado de uma escolha Dele. Há quem pense que se tornou discípulo devido ao seu empenho pessoal, mas não, é Jesus Cristo quem escolhe os seus. Aos chamados cabe a graça da resposta, assumida na forma da fé. Antes que pudéssemos escolher Jesus Cristo, fazer uma opção por Ele, Ele já nos havia escolhido.

Jesus não somente chama mais também envia, “e os enviou dois a dois, na sua frente, a toda cidade e lugar aonde ele próprio devia ir” (Lc 10, 1). Assim, o discípulo é aquele que foi chamado e enviado. Não numa aventura solitária, mas “dois a dois”. Isto para nos lembrar que ninguém é discípulo sozinho, nem evangeliza sozinho. Mesmo Jesus Cristo quis ter entorno de si uma comunidade de discípulos. Esta perspectiva exige uma séria reflexão, seja quanto ao modo de viver o ministério sacerdotal, no caso específico da maioria dos padres diocesanos. Seja no caso de movimentos e pastorais que se isolam dentro do corpo eclesial causando sérias dificuldades de comunhão.

Talvez pensar em futuras comunidades sacerdotais seja o caminho para ajudar na superação de tantas crises na vida sacerdotal, bem como o suporte para o exercício mais autêntico da missão. A presença do outro, com suas virtudes e limites, nos ajuda no caminho da conversão.

Olhando o conjunto do evangelho de hoje é possível individuar as características que devem marcar a vida daqueles discípulos do Senhor de um modo geral e de modo mais direto a vida daqueles que são feitos ministros do Senhor.

Em primeiro lugar se evidencia a vocação como um chamado e um envio da parte de Jesus Cristo. O que indica que nenhuma vocação na Igreja é fruto de um voluntarismo espontâneo, mas o resultado da misteriosa ação de Deus que continua a chamar e enviar em todos os tempos.

Em segundo lugar a evangelização exige daquele que evangeliza a pertença a uma comunidade, “os enviou dois a dois”. É na comunidade cristã, na Igreja, Corpo místico de Jesus Cristo, que encontramos o Cristo ressuscitado, Aquele mesmo que devemos anunciar ao mundo.

Em terceiro lugar, os operários da vinha do Senhor serão sempre poucos: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos…” (Lc 10, 2). Este é um dado que nos inquieta, sobretudo quando presenciamos em nossas dioceses tantas paróquias sem padres, sem Eucaristia. Não poucos homens de Igreja, diante desta inquietação caem na tentação de criar outros critérios para a escolha dos operários, com a intenção de tê-los em maior número.

Ao caírem nesta tentação se esquecem de um aspecto fundamental. As vocações sacerdotais não são o resultado de mecanismos humanos eficientes e bem elaborados. Mas o fruto da escolha e do envio por parte de Jesus Cristo, cujo coração somente pode ser tocado pela oração, como Ele próprio recomenda: “Por isso, pedi ao dono da messe que mande trabalhadores para a colheita” (Lc 10, 2). A arma mais potente que a Igreja tem em suas mãos para o incremento das vocações sacerdotais e religiosas é a oração.

Outra característica dos chamados e enviados é o desapego do mundo, a pobreza, a liberdade interior diante dos bens (cf. Lc 10, 4). O grande tesouro dos discípulos evangelizadores é o Evangelho. A glória dos discípulos evangelizadores é a Cruz de Cristo (Gl 6, 14). Estes estão crucificados para o mundo, porque uma vez chamados e enviados, renunciam as seduções do mundo e vivem para Deus. Certos que aqueles que anunciam o nome de Jesus Cristo neste mundo, têm seus nomes escritos no céu (cf. Lc 10, 20).

Pe. Hélio Cordeiro dos Santos
Formador do seminário maior N. S. de Fátima
Brasília – DF