Neste mês de junho a liturgia nos presenteia com três solenidades que nos ajudam a nos configurarmos ainda mais ao divino mistério do Ressuscitado: Santíssima Trindade, Corpus Christi e Sagrado Coração de Jesus. A beleza dessas solenidades é um prolongamento do esplendor pascal que vivemos na preparação quaresmal e nos cinquenta dias que culminaram com a exuberante festa de Pentecostes.

Nesta semana, precisamente no dia 20, teremos a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Qual o sentido dessa liturgia? Na Quinta-feira Santa celebramos a instituição da Eucaristia, na bela celebração com o rito do lava-pés e traslado do Santíssimo Sacramento; contudo, por ser um tempo mais circunspecto, não se faz a devida honra pública a Nosso Senhor na Eucaristia no dia da sua instituição. Assim, após os tempos quaresmal e pascal, a Igreja reserva no seu calendário a quinta-feira posterior à Solenidade da Santíssima Trindade para fazermos um grande gesto de adoração a Jesus Eucarístico, com testemunho público deste ato.

Antes de tudo, nos uniremos em torno ao altar de nossas igrejas para nos prostrarmos diante da divina presença de Jesus eucarístico. Num segundo momento, faremos a procissão para caminharmos ao lado do Senhor e, por fim, ajoelharemos diante d´Ele em profunda adoração que já tem seu início na santa Missa e se prolonga na procissão com o ponto alto no final com a bênção do Santíssimo Sacramento. “Tantum ergo Sacramentum…”

Convido-os a acompanhar com atitude de profunda interiorização esse belíssimo momento de nossa amada Igreja Católica. É um momento nosso, de adoração e profunda koinonia, isto é, de comunhão, no coração da Igreja, nossa Mãe.

Vivencie o mistério da Santa Missa e acompanhe toda a procissão, para mergulhar na beleza final, que se dá no momento da bênção eucarística, quando todos nós nos prostraremos diante d’Aquele que se inclinou até nós e deu a vida por nós. Detenhamo-nos brevemente sobre essas três atitudes, para que sejam verdadeiramente expressão da nossa fé e da nossa vida.

Nas cidades com mais de uma paróquia, todas se juntam nessa celebração para evidenciar o aspecto solene desse momento, que atende ao desejo de Jesus para que “todos sejam um” (Jo 17). A divina liturgia eucarística nos convida a esta unidade que deve ser o maior testemunho de nossa parte como cristãos.  “Não há judeu nem grego; não há servo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Cristo” (Gl 3, 28). “Todos vós sois um só”! Nessas palavras são sentidas a verdade e a força da revolução cristã, a revolução mais profunda da história humana, que se experimenta precisamente em volta da Eucaristia.

A Eucaristia nunca pode ser um fato privado, reservado a pessoas que se escolheram por afinidades ou por amizade. A Eucaristia é um culto público, que nada tem de esotérico ou de exclusivo. Que toda nossa Diocese celebre com fervor a Solenidade de Corpus Christi, como grande gesto de comunhão e unidade que deve existir entre o clero, os religiosos, as lideranças e o povo de Deus.

Esta celebração é um convite a depormos as armas do nosso orgulho e de nosso autoritarismo pessoal. Jesus eucarístico nos remete à unidade, à comunhão e ao verdadeiro ágape do Ressuscitado. Precisamos disso para vivermos a realidade mais profunda de nossa fé, que é a espera escatológica pela segunda vida do Senhor.

“Nesta solenidade não seremos nós que escolheremos com quem nos encontraremos; iremos e ficaremos uns ao lado dos outros, irmanados pela fé e chamados a nos tornar um único corpo partilhando o único Pão que é Cristo. Estamos unidos independentemente das nossas diferenças de cultura, de profissão, de camada social, de ideias políticas: abrimo-nos uns aos outros para nos tornarmos um só a partir d’Ele. Foi essa, desde os inícios, uma característica do cristianismo realizada visivelmente em volta da Eucaristia, e é necessário vigiar sempre para que as tentações frequentes de individualismo (mesmo se em boa fé) não vão em sentido oposto. Portanto, o Corpus Christi recorda-nos antes de tudo isto: que ser cristãos significa reunir-se de todas as partes para estar na presença do único Senhor e tornar-se n’Ele um só” (Bento XVI).

A força do mistério Eucarístico nos convida a colocar-nos em procissão nesta quinta-feira de Corpus Christi com espírito de adoração e amor a Nosso Senhor. A procissão será a prova viva de que somos cristãos e não temos acanho em externar nossa fé católica. Que a Santíssima Virgem, a Imaculada Conceição, testemunho de mulher adoradora, interceda pelo grande momento de honra a Jesus Sacramentado.

Dom Adair José Guimarães
Bispo diocesano de Formosa (GO)