“Porque nós devemos cumprir toda a justiça” (Mt 3, 15)

O batismo do Senhor, que celebramos hoje na liturgia, marca o início do ministério público de Jesus, sua saída da vida oculta em Nazaré “para abrires os olhos dos cegos, tirar os cativos da prisão, livrar do cárcere os que vivem nas trevas” (Is 42, 7). Este evento assume um aspecto trinitário: o Espírito de Deus pousa sobre Jesus, a quem o pai declara “Este é o meu filho amado” (Mt 3, 17).

Ao ser batizado por João Batista o Senhor inaugura um novo batismo, não mais apenas de penitência, mas um batismo que nos dá a graça da filiação divina. Embora Ele sendo o único Filho amado, por geração eterna, não tinha necessidade de ser batizado. Mas quis ser batizado para “cumprir toda justiça!” (Mt 3, 15). Aqui entenda-se por justiça, Deus que pelo batismo concede ao homem uma condição que não lhe é própria – ser filho de Deus, embora adotivo. No mistério de Jesus Cristo justiça é Deus que salva o homem sem mérito algum da nossa parte.

A justiça que Jesus revela e cumpre no seu batismo é profundamente marcada pela gratuidade. Por que quem de nós merecíamos ser chamados filhos de Deus? Quem de nós merecíamos ser salvos? Quem de nós merecíamos o amor de Deus? Mas Jesus, sendo Filho único e amado do Pai, fez-se batizar para que os homens, ao serem lavados nas águas do Batismo, pudesse receber graça e salvação.

Ao ser batizado no Jordão o Senhor inaugura o seu ministério público, mas em certa medida também antecipa a sua paixão. O mergulho na escuridão das águas antecipa a escuridão do sepulcro, o emergir das águas antecipa sua ressurreição. É por isso que São Paulo nos recorda “Fomos, pois, sepultados com ele na sua morte pelo batismo para que, como Cristo ressurgiu dos mortos pela glória do Pai, assim nós também vivamos uma vida nova” (Rm 6, 4).

Na sua essência o batismo de Jesus tem uma razão diversa do batismo que recebemos. Pois somos batizados para a remissão dos pecados, para receber a graça da filiação adotiva. Cristo não tinha necessidade do Batismo para se tornar Filho, porque Ele é filho de Deus desde toda a eternidade. Ele não tinha necessidade do batismo para receber o perdão dos pecados, porque é em tudo igual a nós exceto do pecado (cf. Hb 4, 15), Ele é o justo entre os justos.

No entanto, Ele quis ser batizado para cumprir toda a justiça, que consiste no perdão dos pecados e na graça da filiação adotiva para o homem pecador. Nós sim temos radicalmente necessidade de ser batizados para que possamos ressurgir com Cristo para uma vida nova. Inclusive as crianças, pois se o batismo é necessário para a salvação, as crianças não podem ficar excluídas desta graça pelo simples fato de serem crianças. Ademais, embora as crianças não tenham pecados pessoais, todos nascemos com as sequelas do pecado original. De modo que todos precisamos da graça de Jesus Cristo, sem a qual não podemos nos tornar filhos de Deus, não podemos ser salvos.

Assim como no batismo de Jesus o Pai declara que Ele é seu “Filho amado”, pelo batismo também nos tornamos filhos amados de Deus. Portanto, precisamos viver como tal, como pessoas que se reconhecem amadas por Deus, por isso são capazes de desprezar a bajulação do mundo. Somos amados por Deus não podemos, pois nos acomodar a uma vida velha, de pecado, sem amor. Não podemos ser de Deus enquanto continuamos a servir os ídolos mortos deste mundo. Tanto que no dia do nosso batismo renunciamos ao demônio e a todas as suas obras.

Por fim, somos filhos amados de Deus, mas será que Lhe tributamos o nosso amor? Cada vez que trocamos o amor de Deus pelo amor das criaturas traímos a nossa condição filial. O amor às criaturas somente é autêntico quando não rivaliza com o amor de Deus. Amor se paga com amor. Se Deus nos ama, não temos o direito de não nos amar. Se Deus ama a todos, não temos direito de odiar ninguém. Amor se responde com amor. Deus nos ama vindo constantemente ao nosso encontro. O amamos quando não medimos esforços para encontra-Lo, para servi-Lo, para adorá-Lo, para louvá-Lo…

Pe. Hélio Cordeiro dos Santos
Formador do seminário maior N. S. de Fátima
Brasília – DF


Leituras: Is 42, 1-4.6-7 / Sl 28 (29) / At 10, 34-38
Evangelho: Mt 3, 13-17