A vocação sacerdotal não é o resultado de um voluntarismo humano que, movido por sentimentos de boa vontade, de altruísmo se apresenta deliberadamente diante de Deus para entrar no seu santo serviço. Muito pelo contrário, na raiz fundante de cada vocação sacerdotal está o agir misterioso do Senhor que continua a chamar a si aqueles que Ele quer: “Depois subiu à montanha, e chamou a si os que ele queria, e eles foram até ele” (Mc 3, 13). É Jesus quem misteriosamente escolhe os burricos que Ele precisa: “Ide ao povoado da frente e, ao entrardes, encontrareis um jumentinho amarrado que ninguém ainda montou: soltando-o, trazei-o. E se alguém vos perguntar ‘Por que o soltais?’, respondereis: ‘O Senhor precisa dele’. Tendo partido, os enviados encontraram as coisas como ele lhes dissera. Enquanto desamarravam o jumentinho, os donos perguntaram: ‘Por que soltais o jumentinho?” Responderam: ‘O Senhor precisa dele” (Lc 19, 30-34).

A escolha primeira é de Jesus, a resposta é nossa. É Ele quem escolhe os jumentinhos, cuja missão é leva-Lo onde Ele precisa ir. Somos como que este jumentinho de Jesus, dos quais Ele quis precisar para Leva-Lo aos homens do nosso tempo. Cristo era acostumado a percorrer vilas e povoados, podia muito bem ter entrado em Jerusalém à pé, como sempre fazia, mas quis precisar de um jumentinho. Jesus Cristo pode chegar aos corações humanos de muitas maneiras, mas quis nos chamar para ser seu jumentinho, para Leva-Lo aonde Ele precisa ir: “Depois disso, designou o Senhor ainda setenta e dois outros discípulos e mandou-os, dois a dois, adiante de si, por todas as cidades e lugares onde ele devia ir” (Lc 10, 1).

O discípulo não é aquele que vai aonde quer, mas que se dispõe a ir àqueles lugares e pessoas, nos quais o Senhor precisa ir. Quando a vocação sacerdotal é autêntica o padre não escolhe a que povo servir, se é nesta ou naquela paróquia ou cidade. A iniciativa primeira quanto à nossa vocação é de Jesus Cristo, que chama a si os que Ele quer. Assim, entendemos a firme premissa do CCE n. 1578:

Ninguém tem o direito de receber o sacramento da Ordem. De fato, ninguém pode arrogar-se a si mesmo este cargo. A pessoa é chamada por Deus para esta honra. Aquele que crê verificar em si os sinais do chamado divino ao ministério ordenado deve submeter, humildemente, seu desejo à autoridade da Igreja, à qual cabe a responsabilidade e o direito de convocar alguém para receber as ordens. Como toda graça, esse sacramento não pode ser recebido a não ser como um dom imerecido.

Logo, a vocação ao sacerdócio não é um direito, é um dom que precisa ser acolhido com a mais autêntica gratidão. Seria uma desgraça alguém arrogar para si este dom sem o ter recebido de Deus. Por outro lado, seria deplorável se alguém que tenha recebido dom tão valioso, venha a rejeitá-lo. Mas que grande graça quando o dom concedido por Deus encontra o terreno fértil de um coração generoso. Aí germina e cresce a maior de todas as ambições juvenis: “o desejo de ser um padre santo”. Porque a maior de todas as ambições não é querer ser padre, mas desejar ser um padre santo.

Após ter chamado os seus discípulos, aqueles que Ele quis, ter convivido com os mesmos, tê-lo formados, o Senhor os consagra: “Dizendo isso, soprou sobre eles e lhes disse: ‘Recebei o Espírito Santo…” (Jo 20, 22). Depois do chamado segue-se a consagração no Espírito, para indicar que aqueles que foram chamados, uma vez consagrados no Espírito Santo já não pertencem mais a si, pertencem a Deus e são destinados exclusivamente para o Seu santo serviço. “A consagração, portanto, não pode ser entendida em sentido sociológico ou ritual, mas como pertença a Deus e destinação em Cristo com a força do Espírito à missão de salvação dada pelo Pai[1].

Assim, o fundamento da vocação sacerdotal não se ancora no fazer, mas no ser, na sua pertença a Deus, que torna aquele que foi ordenado, apto para servir aos seus irmãos nas coisas que se referem a Deus (cf. Hb, 5, 1ss). Este senso de pertença a Deus não pode ser uma projeção para o futuro, mas uma decisão do presente. O seminarista é chamado a viver a sua pertença a Jesus Cristo já agora, na forma de um comprometimento sincero com seu processo formativo.

Depois de tê-los chamados, consagrados, Jesus os envia: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio” (Jo 20, 21). A missão de Jesus Cristo agora continua no mundo no ministério apostólico dos seus discípulos. Ao enviá-los deu-lhes poder, autoridade de perdoar, de vencer o mal e o maligno, de curar os doentes (cf. Mt 10, 1). Poder no qual se funda a constituição hierárquica da Igreja.

Poder este, porém, que não pode ser interpretado em sentido profano, mas em sentido evangélico e teológico. Para usar a explicitação de Ratzinger, entenda-se hierarquia como ‘sacra origine’, não segundo a compreensão profana de ‘sacro domínio’, o que consistiria numa visão degenerada do ministério sagrado[2].

A origem sagrada do ministério requer que ele seja exercido segundo o coração de Jesus Cristo, Cabeça e Pastor da sua Igreja, assumindo a sua forma de pensar, de agir e de falar. Nunca segundo os condicionamentos das nossas pretensões humanas e mundanas de poder, de ambição, de domínio. Porque o verdadeiro poder na Igreja encontra sua mais elevada forma no serviço (cf. Mt 20, 24-28). Como afirma São Paulo: “Nada façais por ambição ou vanglória, mas, com humildade, cada um considere os outros com superiores a si e não cuide somente dos que é seu, mas também do que é dos outros. Tendes em vós o mesmo sentimento de Jesus” (Fl 2, 3-5).

Por fim, dom recebido é dom que se acolhe, que se cuida e se faz frutificar. Daí que não podemos ser negligentes com a nossa vocação. O que exige que cada um assuma o protagonismo na resposta ao dom recebido, para que esta esteja a altura do mesmo. Mesmo diante da consciência da nossa insuficiência diante de tão grande dádiva. Para o seminarista responder ao dom recebido se traduz no assumir as horas devidas de estudo, o trabalho cotidiano da casa, o serviço pastoral, a inserção na vida comunitária, a administração e tolerância diante dos próprios limites e do próximo, espírito de piedade e de oração.

[1]A. MIRALLES, I Sacramenti del servizio della comunione. Il Sacramento Dell’Ordine, in: Commento teológico al Catechismo della Chiesa Cattolica, (a cura di) R. FISICHELLA, PIEMME, Casale Monferrato, 1993, p. 389.

[2] BENEDETTO XVI, La Chiesa: comunità dell’amore, San Paolo, Milano, 2013, p. 86-87.


Texto redigido pelo Pe. Hélio Cordeiro, pároco da Paróquia Sant’Ana em Posse (GO)