Paróquia Sant’Ana
Encerramento do Ano Jubilar da Esperança 2025
Posse, 28 de dezembro de 2025

Spes non confundid/ E a esperança não decepciona…” (Rm 5, 5)

O Ano Jubilar da Esperança, bela intuição do Papa Francisco, agora levado ao seu termo pelo Papa Leão XIV, chega hoje ao seu final, porém os seus frutos e suas intuições continuarão a ecoar na vida da Igreja e dos fiéis ainda por longos anos. Não podemos deixar apagar consciência de que somos peregrinos de esperança, que não estamos sós, mas o Senhor caminha conosco, Ele é o Emanuel, caminhamos com Ele e para Ele. A virtude teologal da esperança nos dá a certeza que nossa vida não caminha para o acaso, ela está orientada para Deus. O Papa Bento XVI nos diz que a esperança consiste em conhecer o verdadeiro Deus: “Chegar a conhecer Deus, o verdadeiro Deus: isto significa receber esperança” (SS n.01).

Também não podemos deixar cair no esquecimento o belo hino do Ano Jubilar “Peregrinos de esperança” de composição de Pierangelo Saqueri, Antônio Cartazano e Francesco Meneglelho. Que este belo hino continue a acalentar nossos corações de peregrinos e a nos introduzir com fruto no mistério da Divina Liturgia da Igreja.

Mas o que é a virtude teologal da esperança? A esperança é a virtude teologal que nos impulsiona a moldar a vida já agora em conformidade com as promessas divinas que ainda estão por realizar-se, é a posse antecipada dos bens eternos que hão de vir. A esperança “é o desejo e a expectativa do bem” nos diz a Spes non confudit. O verdadeiro bem é Deus nos diz o salmista: “Quanto a mim, estar junto de Deus é o meu bem!” (Sl 73, 28). Bem maior do que este não há. Diante disto podemos concluir que a esperança é expectativa de estar com Deus aqui e definitivamente com Ele em sua glória.

A esperança é o oposto da apreensão, da ansiedade, do saudosismo. A esperança mantém a alegria cristã e serenidade no presente, não obstante as crises e dificuldades, e nos mantém abertos para o futuro, sem ansiedades exageradas e sem pretensão de controlar tudo. A esperança mantém o coração do homem aberto a um futuro no qual prevalecerá o bem, o amor, a bondade, as promessas divinas, não obstante as crises, medos e sofrimentos do tempo presente.

Neste sentido a esperança cristã é própria daqueles que, pelos caminhos tortuosos da história, carregam a firme convicção que caminham com Deus e para Deus e que o Senhor os acompanha pelos acidentados percursos da vida. Por fim, ter esperança é cultivar uma vida orientada para Deus, desejoso do cumprimento das suas promessas.

Como exercitar a esperança? Conservando um profundo sentido do valor da vida presente, do amor, do bem, da verdade e uma expectativa ardente na vida eterna. Lugar privilegiado do exercício da esperança é a oração, nos diz o Papa Bento XVI: “Um primeiro essencial lugar de aprendizado da esperança é a oração. Se ninguém mais me escuta, Deus me escuta ainda” (SS, 32). Quando ninguém mais pode nos compreender, consolar, sustentar, Deus o faz, nos ouve, está conosco. De modo que, nem mesmo diante da morte, aquele que tem esperança está só. Também a ação em vista do bem e da transformação do mundo é exercício da esperança, somente que tem esperança pode agir em favor do bem e da verdade, mesmo quando isto lhe exigir o sacrifício. O Papa Bento XVI destaca ainda o sofrimento como lugar do exercício da esperança. O sofrimento nos tira toda a segurança humana, econômica, material, nos restando ancorar em Deus, que nunca nos abandona.

Que este Ano Jubilar da Esperança tenha alcançado o seu objetivo na vida de muitos féis: Reanimar a esperança cristã no coração de todos e nos impulsionar no caminho da conversão. Embora para tantos católicos tenham se mantido na inteira indiferença diante deste manancial de graça, do veemente apelo à conversão e à beber na fonte da misericórdia divina.

A esperança brota da certeza de sermos amados por Deus, um amor que não trai, não decepciona, não condena, um amor que salva. A fonte da esperança: é o amor de Cristo, que nos foi manifestado na cruz. Porque Cristo nos ama, temos esperança (cf. Spes non confundit, n. 3). Quando vem a falir as seguranças humanas, materiais, resta-nos sempre o amor de Cristo.

A esperança caminha junto com a paciência, o saber esperar. Assim, a pressa, o imediatismo da cultura atual são inimigos da esperança. No contexto cultural atual, é preciso estar atentos para não desaprender a esperar. A pressa excessiva nos faz passar de pessoas de esperança para a condição de sujeitos ansiosos. Deus não nos quer ansiosos, Ele espera que sejamos testemunhas da esperança.

Que este evento de graça e de esperança, que ora encerramos com toda a Igreja, tenha sido ocasião oportuna para recorrer à misericórdia de Deus em vista da reconciliação com Deus, com a Igreja, com os irmãos. Desde os primórdios a Igreja celebrou anos jubilares inspirando-se na experiência jubilar do povo de Israel, que se encontra bem descrita em Lv 25, como um tempo adequado para se restaurar a relação com Deus, consigo mesmo, com outro e com a natureza. Daí a indicação de, no ano jubilar: perdoar as dívidas, perdoar as ofensas e as injustiças sofridas, libertar os cativos e deixar a terra descansar. Assim, compreendido o ano jubilar é um tempo de escuta esperançosa da Palavra de Deus; tempo de realizar ações que, efetivamente, levem a gerar esperança.

O fato de termos esperança não significa que não estejamos sujeitos às mesmas intempéries e dificuldades dos outros homens, mas implica na certeza de que a nossa vida, aconteça o que acontecer, não terminará no vazio; “Aparece aqui também como elemento distintivo dos cristãos o fato de estes terem um futuro: não é que conheçam em detalhe o que os espera, mas sabem em termos gerais que a sua vida não acaba no vazio” (SS n. 01). Ter esperança é viver com sentido o presente e ter um futuro em Deus.

Por fim, não percamos a esperança na salvação, pois é isto que dá sentido a nossa vida, a nossa existência. Sem esperança na vida eterna a vida não passa de uma tribulação agitada, um fardo pesado e difícil de carregar do qual queremos nos livrar. Mas se encaramos a vida com Jesus Cristo, ela torna-se uma oportunidade de salvação, o lugar da vivência da esperança e não terminaremos confundidos por que “Spes non confundit” (Rm 5, 5). A esperança que não decepciona é Cristo, são esperançosos aqueles que realmente se fazem seus amigos pela fé.


Artigo redigido pelo Pe. Hélio Cordeiro, Pároco da Paróquia Sant’Ana em Posse (GO)