Posse, 31 de agosto de 2025
XXII Domingo do tempo comum – C
Leituras: Eclo 3,19-21-30-31/Sl 67 (68)/Hb 12, 18-19.22
Evangelho: Lc 14, 1.7-14

Ser humilde é viver como Cristo viveu

Quando nos aprofundamos no conhecimento da História da Salvação é inevitável não reconhecer como Deus realiza sua obra preferencialmente com a cooperação dos humildes. Os humildes são, pois, os instrumentos privilegiados de Deus para realizar seu plano de amor e salvação. Entre estes humildes ocupa um lugar ímpar a Bem-Aventurada Virgem Maria, o que Ela reconhece no Magnificat:Minha alma engrandece o Senhor, e meu espírito exulta em Deus, meu Salvador, porque olhou para a humilhação de sua serva” Lc 1, 46-47).

O olhar de Deus se deixa atrair pelos humildes, por aqueles cuja preocupação não é ocupar os primeiros lugares, mas servir. Enquanto que o coração dos humildes é voltado para Deus, para seu serviço, para fazer a sua vontade. Enquanto os orgulhosos se movem pelo anseio de grandeza, de evidência, de sucesso pessoal, de fama e de reconhecimento; os humildes anseiam que Deus ocupe o primeiro, seja conhecido, seja amado, seja adorado, seja servido.

O homem de coração humilde reconhece que, em tudo, é Deus quem ocupa o primeiro lugar. Para o orgulhoso, é ele mesmo quem deve ocupar o primeiro lugar. Neste sentido, constatamos que estamos vivendo mundo de pessoas profundamente orgulhosas, haja visto que Deus já não ocupa o primeiro lugar na vida tantos homens. Mesmo entre os que tem alguma prática religiosa o orgulho não está longe, uma vez que vivem uma religiosidade superficial, que parte do princípio que Deus é um quebra-galho, que deve satisfazer os seus desejos de riqueza, de prosperidade, de cura, da afetividade, de sucesso à qualquer custo.

A estes Deus não se dá a conhecer: “Muitos são altaneiros e ilustres, mas é aos humildes que ele revela seus mistérios” (Eclo 3, 20). Enquanto que o orgulho cega o coração do soberbo impedindo-o de compreender e de aceitar os mistérios de Deus. O humilde espera a recompensa que vem de Deus, o orgulhoso encontra sua recompensa na lisonja falsa e banal do mundo, dos elogios fáceis, da paparicação, da bajulação, da troca de favores.

O orgulhoso presume da sua superioridade sobre tudo e sobre todos; presume a sua importância mas do que a de qualquer outra pessoa. Já o humilde é sempre inclinado a considerar o outro como mais importante do que a si mesmo. O humilde vive na realidade, o orgulhoso ufana-se na ilusão e pretensão de sua própria importância e grandeza.

Segundo Enzler “A humildade não consiste em atos exteriores, ainda que estes sejam motivados por ela. A humildade é interior. É uma disposição interna de conhecer a verdade sobre si mesmo, de aceita-la e de viver de acordo com ela. É a base sólida sobre a qual deves levantar tua vida espiritual”. Sendo assim, o humilde aceita a sua condição pessoal, sem se diminuir e sem se elevar. Para o humilde importa que Nosso Senhor reine sobre sua vida.

Nos seus Exercícios Espirituais Santo Inácio de Loyola destaca em suas meditações ao menos três tipos de humildade: 1ª Obedecer em tudo a lei de Deus; 2ª Procurar a vontade de Deus, sem ‘inclinar-se a possuir a riqueza e inclinar-se à pobreza’; 3ª A identificação com Cristo: sofrer injustiças, incompreensões, desprezo, violência, despojamento, ser considerado estúpido e louco com Cristo que por primeiro ser considerado sábio e prudente neste mundo.

Disto se conclui que a humildade é obediência a Deus, às suas Leis e mandamentos, é identificação com Cristo, é querer ocupar neste mundo, não os primeiros lugares, mas o lugar que Cristo ocupou – A Cruz. Ser humilde é procurar viver como Cristo viveu, é imitá-Lo. Esta disposição nos liberta de tantos males, uma vez que vivemos numa cultura que nos condiciona a imitar personalidades, youtubers, influencers, famosos, no seu estilo de vida pagão, pecaminoso, irreverente, e eivado de orgulho.

Por fim, como é oportuno rezarmos todos os dias: “Ó Jesus, Manso e Humilde de coração, fazei o nosso coração semelhante ao Vosso!” Oração que expressa o desejo de ter em nós as mesmas virtudes, a mesma vida, o mesmo modo de pensar, agir e sentir de Jesus. Eis o caminho da humildade. A humildade nos leva a reconhecer a Cristo como Senhor nosso e o próximo como nosso irmão. Enquanto que o orgulho, contrariamente, nos leva a ver a Cristo e o próximo como adversários. Os orgulhos procuram sua recompensa neste mundo, os humildes esperam ‘a recompensa na ressurreição dos justos” (Lc 14, 14).

Texto redigido pelo Pe. Hélio Cordeiro, pároco da Paróquia Sant’Ana em Posse (GO)