Roma, 05 de outubro de 2014
XXVII Domingo do tempo comum/A
Leituras: Is 5, 1-7/ Sl 79 (80)/ Fl 4, 6-9
Evangelho: Mt 21, 33-43

Amados irmãos e irmãs, hoje o Senhor nos revela seu cuidado assumindo a imagem do agricultor que zelosamente cuida da sua vinha – imagem do povo de Deus. “Um amigo meu possuía uma vinha em fértil encosta. Cercou-a, limpou-a de pedras, plantou videiras escolhidas, edificou uma torre no meio e construiu um lagar; esperava que ela produzisse uvas boas, mas produziu uvas selvagens” (Is 5, 1-2). Mas apesar de todo cuidado a vinha não produziu bons frutos.

No contexto do Antigo testamento a vinha do Senhor “é a casa de Israel” (Is 5, 7), plantação dileta de Deus. Mas apesar de todo cuidado dispensado por Deus que ama seu povo com verdadeira ternura e misericórdia, que o perdoa quando desvia do seu caminho, que o alimenta quando tem fome, que lhe dá água quando tem sede, que lhe dava uma nuvem para o proteger do sol escaldante do deserto. Os frutos não vieram na proporção do amor e do cuidado recebido. Tanto que o dono da vinha se pergunta: “O que poderia eu ter feito a mais por minha vinha e não fiz?” (Is 5, 4).

Hoje somos a vinha do Senhor, Ele nos tem cuidado, amado, cercado de carinho, nos conduzido. Deu-nos até uma torre de guarda – a Igreja – para não sermos sufocados pelas ervas selvagens da mentira, do erro, do pecado. Mas quantas vezes nos rebelamos contra Deus, desprezando seu amor. E ao invés de produzirmos os frutos doces da humildade e obediência, produzimos os frutos azedos da rebeldia e prepotência.

Por nós mesmos não somos capazes de produzir fruto algum de justiça e santidade. Somente unidos à verdadeira videira – Jesus Cristo – podemos dar os frutos que o Senhor espera de nós. “Eu sou a videira e vós os ramos. Aquele que permanece em mim e eu nele produz muito fruto; porque, sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15, 5).

Se no Antigo Testamento a vinha do Senhor era um povo, agora a vinha do Senhor é uma pessoa – Jesus Cristo – e começamos a fazer parte desta vinha quando somos batizados. E unidos a Ele podemos produzir frutos no amor. Portanto, o que se espera de um Cristão é que seja Cristo para os outros. Ser cristão é ser Cristo na vida do outro. Um galho separado da videira não produz fruto, antes está condenado a morrer.

Hoje é comum as pessoas se perguntarem diante de seus fracassos, de suas lutas, de seus medos: “Onde está Deus?”. Penso que, mesmo nas situações mais absurdas, esta pergunta precisa ser invertida. Deveríamos nos perguntar, pelo contrário, “Onde está o homem?” ou individualmente: “Onde é que estou”?. Pois com frequência e facilidade, trocamos o amor de Deus pelo amor próprio. Trocamos os cuidados do agricultor pela nossa autossuficiência. Quantas vezes nossa postura diante da vida está a dizer implicitamente: “Eu cuido da minha vida, Deus cuida dos meus problemas”, como se o sucesso fosse fruto do meu esforço e meus fracassos consequências dos descuidos de Deus.

Por fim, uma vinha autônoma é uma vinha estéril. E estéril é a vida daquele que não aceita, não busca e não reconhece o cuidado e o amor de Deus na sua vida. Por isso é um gesto de profunda e sincera humildade: “apresentar as vossas necessidades a Deus, em orações e súplicas, acompanhadas de ação de graças” (Fl 4, 6-9). Pois a oração é o exercício da humildade que abre as portas para deixar Deus cuidar da nossa vida. Pois sem Ele nada podemos fazer, não rejeitemos o seu cuidado (cf. Jo 15, 5).

Pe. Hélio Cordeiro