Posse, 20 de setembro de 2026
XXV Domingo do tempo comum – A
Leituras: Is 55, 6-9/ Sl 144 (145)/ Fl 1, 20c-24.27a
Evangelho: Mt 20, 1-16ª
“Só uma coisa importa: vivei à altura do Evangelho de Cristo” (Fl 1, 27 a).
Um dos aspectos desconcertantes da vida neste mundo é que ele nos encanta, nos atrai, mas logo nos damos conta que não podemos reter nada do que aqui está em modo definitivo. Constantemente nos chocamos com a finitude, com a transitoriedade, com o despojamento. Esta constatação nos leva a interrogar sobre o sentido da vida, se há algo pelo qual importa viver. Não resta dúvida que sim: o amor de Deus derramado em nossos corações, a nossa pertença a Cristo, alegrar-se com o bem do outro, o procurar viver à altura do Evangelho.
Esta é a conclusão de São Paulo no Hino à Caridade: “…se não tivesse a caridade, nada seria” (ICor 13, 2). O mesmo podemos dizer desta vida, se não tivermos amor a vida perde o seu sentido. Sem amor as coisas começam a ter um valor maior do que Deus, do que as pessoas, porque a vida passa a ser dominada pela ambição, a ânsia de posse, de poder, de prazer, de ostentação, que termina por cavar a ruína das pessoas, das famílias, da comunidade, das instituições, ou mesmo da nação, como tristemente temos presenciado ultimamente na sistêmica corrupção que assola nossa amada pátria. Na qual o amor, a verdade, o temor de Deus, deu lugar ao culto à Mamona, ao Deus dinheiro, ao preço da exploração dos pobres e do esbanjamento do dinheiro do povo.
O amor a Deus e ao próximo é o resumo da lei nova do Evangelho, promulgada por nosso Senhor Jesus Cristo (Rm 13, 10). Pois sem amor não podemos viver. Atravessar esta vida comprometida com este amor é caminho seguro para a vida eterna, porque onde impera o amor a vida reina para sempre. Uma vida sem amor a Deus e ao próximo é apenas uma aparência de vida. Quantos vivem nesta aparência?
Quem se empenha por viver este amor vive para Cristo, com Cristo e por Cristo. Oxalá possamos dizer com São Paulo: “Pois, para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Fl 1, 21). Este é o lema de vida para todos os que aderiram a Cristo pelo batismo. O Cristão não vive para agradar aos homens, para agradar a si mesmo, para acumular riqueza encima de riqueza, para servir ao mundo, mas para agradar a Deus.
Cristo é o fundamento da existência dos que o amam, dos que colocam Nele a sua esperança. Não gastemos energia correndo atrás da servidão da carne, rastejando na lama, de pecado em pecado, de mentira em mentira, de ambição em ambição, empenhemo-nos em estar a altura do Evangelho, pois “Só uma coisa importa: vivei à altura do Evangelho de Cristo” (Fl 1, 27 a).
Afinal de contas somente o amor, a pertença incondicional a Cristo, o bem, a verdade é que permanecem para além do influxo inexorável do tempo. Todo o resto é provisório, é passageiro, é transitório, somente o que está enraizado em Cristo permanece. Importa, pois, que sejamos fiéis em Cristo e fiéis a Cristo. Não importa se começamos a segui-Lo há muitos anos, a pouco meses, a poucos dias. Importa que saibamos acolher com alegria o bem que Ele nos dá com gratidão; importa que nos entreguemos a Ele por inteiro, importa que nos alegremos com outros irmãos que também são chamados a segui-Lo.
Jesus nos convida continuamente a trabalhar na sua vinha, com alegria, sem pretensões, sem inveja. Estas posturas matam o amor, matam a comunhão. Cegam o coração ao ponto de torna-lo incapaz de reconhecer o bem que Deus tem feito em nosso favor e em favor dos irmãos.
Vejamos o triste exemplo dos trabalhadores da vinha, o patrão lhes havia prometido uma moeda de prata por dia, e assim cumpriu a sua promessa. Mas estes levados por inveja “começaram a resmungar contra o patrão”. Aqui o problema não foi o valor do pagamento, porque a dinâmica da inveja não se trata de desejar o que é do outro, trata-se de um vício que tem raízes mais profundas. A inveja é o ser tomado de tristeza pelo bem do outro. Por isso pode ocorrer do invejoso ter o mesmo que o outro tem, ou até mais. Contudo, carrega uma tristeza profunda, por não suportar o bem do outro.
Na sua essência a inveja é uma profunda falta de amor, o invejoso não sabe o que é o amor, o que é a gratidão, o que é a generosidade, o que é a bondade, o que é a gratuidade. O invejoso, pensa apenas no seu bem pessoal. Não suporta que o outro seja generoso, é tomado de indignação diante do bem do outro. Assim, a inveja é a inversão do amor, a inversão da vida em Cristo. Supliquemos ao Senhor que derrame em nossos corações um amor tal que sejamos capazes de vencer toda inveja, toda cobiça, toda pretensão. Que nossa alegria seja a de ser operários na vinha do Senhor. Que possamos nos alegrar cada vez que novos irmãos forem agregados a esta vinha. A salvação, do outro, a sua conversão, o seu bem, deve nos trazer alegria. Sem esta disposição não estaremos a altura do Evangelho. O amor a Deus e aos irmãos vale mais do que a moeda de prata recebida ao fim do dia.
Homilia redigida pelo Pe. Hélio Cordeiro, Pároco da Paróquia Sant’Ana em Posse (GO)




