Posse, 27 de setembro de 2026
XXVI Domingo do Tempo comum – S
Leituras: Ez 18, 25 -28/Sl 24/ Fl 2, 1-11
Evangelho: Mt 21, 28-32
O coração convertido é um coração conformado com o coração de Cristo
Dada a nossa condição de pecadores só há para nós um caminho para a vida: a fé e o arrependimento que nos abre à graça da conversão e da vida nova com Cristo. Este princípio está no núcleo da pregação de Nosso Senhor: “Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1, 15). Fé em Jesus Cristo e arrependimento andam juntos. Se alguém disser que crê em Jesus, mas não se arrepende dos seus pecados, não abandona a vida mundana, está vivendo na mentira. Se alguém diz que se arrependeu dos seus pecados, mas não crê em Jesus permanece na escuridão, pois é o Senhor quem nos dá a conhecer os nossos pecados.
“Arrepender-se não é só sentir uma dor passageira, é mudar de vida. E mudando de vida, está contribuindo com suas obras para a salvação” (L. Navarro, Legítima interpretação da Bíblia, Santa Cruz: São Caetano do Sul, 20171, n. 54, p. 73). O arrependimento abre o horizonte da nossa vida para a ação da misericórdia de Deus. Ele não nos trata conforme exigem nossas faltas, mas em proporção à grandeza da sua misericórdia. Esta somente não nos alcança, quando nos obstinamos no pecado, excluindo a Deus do nosso horizonte.
Contudo, um coração, sinceramente arrependido, atraí sobre si a misericórdia de Deus. No entanto, a conversão é realmente conversão quando abarca o homem por inteiro. Ou seja, o arrependimento deve ser de todos os pecados, não apenas de alguns: “Arrependendo-se de todos os seus pecados, com certeza viverá; não morrerá” (Ez 18, 28).
Não existe arrependimento ou conversão pelas metades, como também não existe confissão parcial dos pecados. Se alguém vier a omitir propositalmente algum pecado na confissão ele torna a sua confissão sacrílega. Se alguém disser que se arrepende das suas fornicações e adultérios, mas não se arrepende das suas injustiças, não há aí um verdadeiro arrependimento. Se alguém agir assim, seria como um doente que, acometido de hepatite e diabetes, quer tratar uma e descuidar da outra. Em suma, continuará enfermo.
Consequentemente, quem se arrepende apenas parcialmente dos seus pecados continua escravo do pecado, segue espiritualmente enfermo, enquanto não se arrepender de todos os seus pecados. Arrepender-se é permitir que Deus nos conduza por seus caminhos. Enquanto que permanecer no pecado é deixar-se guiar por nossos desvios que não nos levam a nada ou a lugar nenhum.
O evangelho nos fala de dois filhos, entre os quais um disse que não ia trabalhar na vinha, mas foi. Outro disse que ia, mas não foi. Estes dois filhos bem podem ser entendidos como a imagem do coração do homem, sempre divido em duas inclinações. Ora queremos fazer a vontade de Deus, ora queremos fazer a nossa vontade; ora temos desejo do céu, ora rastejamo-nos ávidos dos bens desse mundo. Ora dizemos que vamos, mas não vamos; ora dizemos que cremos, mas não temos fé, vivemos como pagãos. O que fazer diante desta dicotomia? Renovar a cada momento a nossa decisão por Cristo, mesmo quando tivermos que contrariar nossa própria vontade. Nisto nos ajuda rezar a todo momento: “Nom nobis, Domine, non nobis, sed nomini tuo da glória/ não a nós Senhor, ao Seu nome a glória”. O mesmo que dizer sim a Ti Senhor!
Quando se trata de nos colocar a caminho com Cristo, não precisamos ter medo de mudar de opinião, de mudar de vida, de arrepender-se. Mesmo que outrora tenhamos vivido na mentira não tenhamos medo de nos decidir pela verdade; mesmo que nosso coração já tenha sido, em algum momento, dilacerado pelo ódio, não tenhamos medo de decidir a amar; mesmo que já tenhamos sido escravos da carne, da luxuria e de todo tipo de aberração sexual, não tenhamos medo de cultivar um coração que seja puro. Mesmo que tenhamos sido envolvidos pelas trevas da incredulidade, do ateísmo, da indiferença, das falsas doutrinas, nunca é tarde para deixarmo-nos iluminar pela luz da fé em Cristo.
A batalha pela conversão se trava no interior, no coração, é aí que nos decidimos por Cristo ou contra Ele. Que possamos nos decidir definitivamente por Cristo até ao ponto de dizer: tenho em mim “o mesmo sentimento que existe em Jesus Cristo” (Fl 2, 5). O coração convertido é um coração conformado com o coração de Cristo.
Homilia redigida pelo Pe. Hélio Cordeiro, Pároco da Paróquia Sant’Ana em Posse (GO)




