A história da Igreja conhece um inumerável testemunho de matrimônios santos ao longo da sua história, contudo a elevação ao altar de muitos fiéis que se santificaram vivendo a vocação matrimonial é uma página mais recente da história da Igreja. Entre estes se destaca o casal francês Zélia e Luiz Martin, primeiro casal canonizados juntos na história da Igreja, pais de Santa Terezinha, canonizados pelo Papa Francisco aos 18 de outubro de 2015, cujo perfil espiritual é uma luz para os matrimônios cristãos.

Na sua juventude, tanto Zélia como Luiz sentiam-se inclinados à vida religiosa, até que se convenceram que eram chamados a santidade na vida matrimonial. Após se casarem mantiveram, em meio a vida familiar e profissional, uma intensa vida espiritual, cujo centro diário era a Santa Missa, que frequentavam todos os dias às 5h30 da manhã, antes de iniciarem qualquer outro a fazer. De modo que empreenderam uma vida matrimonial profundamente eucarística.

Esta dimensão eucarística do seu matrimônio e vida familiar se intensificava no dia de Domingo, Dia do Senhor, que segundo São Luiz Martin era o dia no qual “só Deus deve ser servido”1. Quisera que todos os esposos cristãos tivessem esta compreensão! Certamente nossas famílias teriam um rosto muito mais parecido com o Evangelho. Para Santa Zélia e São Luiz a Santa Missa tinha precedência sobre todo o resto por mais importante que seja. No dia de domingo nada poderia ser mais importante do que o encontro com o Senhor na Santa Missa e na comunidade: nem o shopping, nem a feira, nem o churrasco, nem a chácara, nem a fazenda, nem o pedal. O Domingo é para o Senhor, para a família, para o descanso.

Este compromisso vivo de fé à partir da Santa Missa tinha um objetivo claro – amar a Deus sobre todas as coisas e conservar o estado de graça da alma, propício à amizade com Deus. Santa Zélia e São Luiz compreendiam que este era o bem mais precioso a conservar. Pois sem a graça de Deus, sem a amizade com Ele não seríamos nada. Foi sustentado pela graça de Deus que este santo casal pode zelar com firme caridade pelos doentes da família, da vizinhança, ou mesmo desconhecidos. Foi pela graça de Deus que souberam viver com esperança a perca de quatro filhinhos ainda pequenos. Foi pela graça de Deus que Santa Zélia enfrentou com paciência e confiança em Deus a enfermidade e que São Luiz Martin enfrentou a viuvez e, por fim, também a enfermidade.

São Luiz mantinha na sua sala de trabalho algumas frases que o estimulavam a permanecer com o pensamento em Deus e na eternidade. Por exemplo: “A eternidade aproxima-se e nós não pensamos nisso” ou ainda “Deus está a ver-te”. Santos pensamentos que nos revela um homem com os pés no chão e o coração na eternidade, com a consciência de quem estava sempre na presença de Deus.

Foi imbuído deste espírito de fé, de oração, de caridade, de esperança, que este casal viveu sua fidelidade a Deus sendo fiéis um ao outro e realizaram de modo cristão a tarefa educativa das suas
filhas, bem como o trabalho quotidiano em vista do sustento material da família. Foi neste ambiente intensamente humano e intensamente cristão que foi gerada Santa Terezinha, um reflexo da santidade dos seus pais.

Santa Zélia e São Luiz Martin souberam compreender que os sacrifícios e renúncias da vida família, os sofrimentos, as dores, as perdas, quando vividos com amor e por amor abrem caminho para o céu. Este foi o objetivo deste santo casal desde a sua juventude – ser santo, chegar ao céu. Mas antes disso, servir a Deus com todo empenho nesta vida através da família, dos irmãos, da comunidade, do trabalho. Santa Zélia e São Luiz Martin! Rogai por nós!


1LUDIMILA & S. GRYGIEL (Orgs.), Esposos e Santos: Dez perfis de santidade conjugal, Paulinas: Prior Velho, 2014, p. 169.

Artigo escrito pelo Pe. Hélio Cordeiro, Pároco da Paróquia Sant’Ana em Posse (GO)