A vivência do luto na perspectiva cristã católica

A firme convicção de que a morte não é o fim, mas o começo ocupa o centro da fé cristã católica desde as suas origens. O que São Paulo sintetiza com as seguintes palavras: “E, se Cristo não ressuscitou, ilusória é a nossa fé… O último inimigo a ser destruído será a morte, pois ele tudo pôs debaixo dos pés dele” (ICor 15, 17.26). Ou ainda, “Portanto, pelo batismo nós fomos sepultados com ele na morte para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós vivamos vida nova” (Rm 6, 4). Fundado nestas verdades o cristão passa pela morte com a firme certeza que passa deste mundo para a Vida verdadeira, escondida em Deus – a Vida eterna.

O cristão deixa este mundo na esperança da ressurreição futura, daí que professamos no Creio: “Creio na ressurreição da carne. Amém!” O homem por inteiro será arrancado da humilhação do pecado e da morte, pela força de Cristo ressuscitado, “Senhor que dá a vida”. Assim, o corpo do cristão é lançado na terra como a semente que germinará para uma vida nova, “onde não mais existirá, lágrimas ou dor”. Fundados nesta esperança é que os cristãos se despedem dos seus entes queridos, sofridos porque os ama, mas com esperança, porque sabem que quem vive em Cristo, viverá para sempre.

Neste sentido, o luto na perspectiva cristã é envolto em dois significados: o da assimilação da dor, da despedida do ente querido; e o da esperança da vida eterna e da ressurreição no último dia. Ademais, pela fé, compreendemos que a comunhão entre os que pertencem a Cristo não se interrompe com a morte, mas é continuada de um novo modo. Não obstante a tristeza o cristão vive a morte dos seus numa postura de sóbria alegria e confiança em Deus, para quem tudo vive.

Dada a vitória de Cristo sobre a morte, por sua ressurreição, dada nossa união com Ele pela graça dos sacramentos, sabemos que é Ele quem tem a última palavra sobre nós, não a morte. Disto decorre a falsidade da premissa dos ateus e materialistas: “Morreu acabou!” Não! Morreu começou! Tanto que os cristãos primitivos denominavam o dia da morte dos mártires como o Dies natalis – Dia do nascimento para o céu. Dito isto, o desespero diante da morte de um ente querido é contrário ao espírito cristão e àquilo que que a fé nos dá. Diante da morte de um ente querido cabe o choro, a tristeza, mas jamais o desespero, nem jamais pode faltar a esperança. Ainda, vale lembrar que o ente querido falecido precisa mais das nossas orações do que das nossas lágrimas, pois, nunca sabemos por inteiro em qual estado se encontrava sua alma na hora da morte.

A prática da oração pelos fiéis falecidos acompanha a Igreja desde os seus primórdios, como expressão de esperança e fundada na referência bíblica II Mc 12, 46. Na mesma linha deste texto bíblico São João Crisóstomo formulou as seguintes palavras: “Levemos a eles socorro e celebremos sua memória. Se os filhos de Jó foram purificados pelo sacrifício de seu pai, por que deveríamos duvidar de que nossas oferendas em favor dos mortos lhes levem alguma consolação? Não hesitemos em socorrer os que partiram e em oferecer nossas orações por eles” (citado in: CCE, n. 1032).

Dado o sentido cristão da morte a Igreja, desde a antiguidade, celebra os funerais dos seus fiéis com uma celebração litúrgica – as exéquias. Na qual encomenda a Deus o fiel falecido, expressa sua comunhão com o defunto, súplica a misericórdia de Deus por sua alma e anuncia a vida eterna e a ressurreição aos familiares e presentes (cf. CCE, n. 1684-1686). É nesta perspectiva que os fiéis em Cristo são convidados a viver o luto.


Artigo escrito pelo Pe. Hélio Cordeiro, Pároco da Paróquia Sant’Ana em Posse (GO)