Posse, 19 de abril de 2025
III Domingo do tempo pascal – A
Leituras: At 2, 14.22-33/Sl 15 (16)/IPd 1, 12-21

Quando os discípulos não reconhecem o Mestre

O evangelho de hoje nos coloca diante de uma realidade altamente provocativa, os discípulos que perderam a capacidade de reconhecer o Mestre. “Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles. Os discípulos, porém, estavam como que cegos, e não o reconheceram” (Lc 24, 15 -16). A dramática experiência da cruz esfriou a fé dos discípulos ao ponto de não serem capaz de reconhecer a sua presença.

Assim, emerge a falta de fé como uma cegueira, uma incapacidade de reconhecer a presença de Cristo, de reconhecer que Ele vive e caminha conosco nos tortuosos caminhos da vida. O mesmo Jesus caminha também conosco, mas para reconhece-Lo é preciso o dom da fé. Não permitamos que as desventuras da vida, as frustações, as falsas esperanças, os sofrimentos, venham a nos roubar a fé em Cristo ressuscitado, porque Nele está a nossa esperança.

Quando os discípulos não reconhecem o Mestre estes se tornam desertores da fé, que partem sem direção, procurando solução, esperança, consolo onde não podem encontrar. Para reconhecermos o Mestre é preciso deixa-Lo falar ao coração, confiar na sua palavra, perseverar na eucaristia e permanecer na comunidade (Igreja). Quando não reconhecemos a presença de Jesus pela fé, logo nos tornamos irreconhecíveis como discípulos. Não é por acaso que muitos carregam o nome de cristãos católicos, enquanto a vida não é de discípulos, porque estão cegos, não vivem a fé que receberam da Igreja.

É belo ver como que Jesus foi levando, aos poucos, os discípulos da cegueira à fé. Primeiro começou lhes explicando as Escrituras que falavam a seu respeito. Isto evidencia que na Palavra podemos encontrar o Senhor. A Sagrada Escritura inteira nos fala de Jesus Cristo, nos ajuda a conhece-Lo melhor, nos ajuda a nos abrir à graça da fé, sobretudo os evangelhos.

Um segundo sinal que ajudou os discípulos a reconhecerem a presença do Senhor foi o partir o pão, imagem da Eucaristia: “Quando se sentou à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o, partiu -o e lhes distribuía. Nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus” (Lc 24, 30 -31). A Palavra abriu o entendimento dos discípulos, o partir o pão lhes abriu o coração para reconhecerem a Cristo.

Uma vez que o Senhor lhes abriu os olhos, os discípulos mudaram de direção, já não seguiram viagem para Emaús, antes retornaram à Jerusalém, onde encontraram os Onze. Ou seja, voltaram à comunidade apostólica, pois é na comunidade apostólica, a Igreja, que podemos encontrar-nos com o Ressuscitado.

Se queremos, pois, reconhecer Jesus, encontra-Lo, nos abrir à graça da fé, é preciso abrir o entendimento com a Palavra de Deus, abrir o coração ao Senhor na Eucaristia e encontra-Lo na comunidade. Estes são lugares privilegiados do encontro com o Senhor Ressuscitado. Ele não nos quer como discípulos cegos, medrosos, fugitivos. Ele nos quer de olhos abertos, fervorosos na fé, peregrinos do amor, da paz e da esperança neste mundo, testemunhas da sua ressurreição.

Ao reconhecerem o Senhor os discípulos compreendem que Jesus venceu a morte, que a sua missão continua. “Ele não foi abandonado na região dos mortos e sua carne não conheceu a corrupção” (At 2, 31). Unidos a Ele podemos também vencer o temor da morte e todos os outros temores.

Este deve ser um dos distintivos dos discípulos de Jesus, vencer os temores, reconhecer a presença de Jesus, na Palavra, na Eucaristia, na Igreja, viver e testemunhar esta presença. Não permitamos que Jesus se torne um estranho para nós, é necessário que os discípulos reconheçam a presença do mestre. Como também é necessário que sejamos reconhecidos como discípulos do mestre.


Homilia redigida pelo Pe. Hélio Cordeiro, Pároco da Paróquia Sant’Ana em Posse (GO)