Posse, 06 de setembro de 2026
XXIII Domingo do tempo comum – A
Leituras: Ez 33, 7-9/Sl 94 (95)/ Rm 13, 8-10
Evangelho: Mt 18, 15-20

“O amor é o cumprimento perfeito da Lei” (Rm 8, 10)

O amor é próprio da natureza de Deus, é o resumo do evangelho, “é o cumprimento perfeito da Lei” (Rm 8, 10), daí que fomos criados por amor e para amar, a Deus e ao próximo. Amar o próximo significa desejar e realizar em seu favor toda sorte de bem, quase sempre indo contra nossas inclinações naturais que nos levam ao ciúme, ao ódio, ao desejo de vingança, à calunia, à indiferença, ao desprezo, ao rancor, à maledicência, à violência nas ações e nas palavras. O amor de Deus, enraizado em nossos corações, nos desarma de todas estas mazelas.

É por amor, a Deus e ao próximo, que respeitamos o matrimônio; é por amor que fugimos da calúnia, da mentira, da fofoca, da luxúria, da cobiça. É por amor que não apossamos do que é alheio; é por amor que procuramos guardar a pureza do corpo e da alma – a castidade. É por amor que zelamos pela nossa vida e da do próximo também. É por amor que não depredamos a criação. É por amor que prestamos culto a Deus na Santa Missa, na oração, no empenho por uma vida virtuosa.

Contudo, sabemos, por experiência própria, que nem todos os nossos atos, palavras, pensamentos e ações, são motivados e realizados com amor. Trata-se do drama brutal do pecado, que na sua essência é uma profunda falta de amor. Disto decorre que precisamos ser corrigidos no amor e por amor.

Disto deriva um aspecto irrenunciável do amor cristão – a correção fraterna. Como o próprio nome já indica – correção entre irmãos em Cristo. Quando o outro comete um erro, um pecado, não deixou de ser nosso irmão, embora o pecado tenha gere uma ferida na comunhão com Deus e com o próximo.

O remédio para esta ferida não é expor a mágoa que sentimos na internet, não é difamar a pessoa, não é mandar indireta por meio de postagens em rede social, não é linchar o outro moralmente ou fisicamente; o remédio é a correção fraterna realizada com amor e no amor. O que requer a observância dos seguintes princípios:

  • “Se o teu irmão pecar contra ti vai corrigi-lo, mas em particular, a sós;”
  • “Se ele não te ouvir, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas”.
  • “Se ele não vos der ouvido, dize-o à Igreja”
  • “Se nem mesmo à Igreja ele ouvir, seja tratado como se fosse um pagão ou um publicano”.

A estes princípios se acrescentam duas posturas importantes: aquele que corrige o faça com caridade; quando formos corrigidos acolhamos com humildade. Pois o fim da correção fraterna é ganhar o irmão para Cristo, é restabelecer a comunhão que foi ferida, é chamar à graça da conversão, é reavivar o amor que foi perdido. Não podemos transformar a correção fraterna em ocasião para humilhar o irmão, isto seria uma gravíssima inversão.

Somente quem é movido pelo amor de Cristo sabe corrigir fraternalmente e aceita ser corrigido com humildade. A correção fraterna é necessária ainda para o bem das nossas almas. Se alguém que poderíamos ter corrigido se perde, tornamo-nos corresponsáveis pela sua ruína: “Se eu disser ao ímpio que ele vai morrer, e tu não lhe falares, advertindo-o a respeito de sua conduta, o ímpio vai morrer por própria culpa, mas eu te pedirei contas da sua morte” (Ez 33, 9).

Aquele que, podendo corrigir fraternalmente o seu irmão e não o faz, peca por omissão, comete uma falta contra a caridade. Aquele que, ao ser legitimamente corrigido, não aceita torna-se ímpio. Assim, nos adverte a Palavra de Deus: “Por isso, não repreendes o zombador, para que não te odeie; mas repreende o sábio, e ele te amará” (Pv 9, 8-9).

Qual a diferença entre o pecador e o ímpio? O pecador chora de arrependimento por seus pecados, agradece por ter sido corrigido, por ter sido ajudado a reencontrar o caminho, por ter sido ajudado a levantar-se da sua miséria. Enquanto que o ímpio procura justificar a qualquer custo o seu pecado, afim de nele permanecer.

Por fim, que o amor de Deus, derramando em nossos corações, seja a Lei suprema da nossa vida, mesmo quando o pecado, nosso e dos outros, vier a ofuscá-lo. Somente o amor torna possível reconhecer o outro como irmão apesar do pecado que o feriu e que nos feriu. Só no amor podemos reconstruir a comunhão com Deus e com o próximo.


Homilia redigida pelo Pe. Hélio Cordeiro, Pároco da Paróquia Sant’Ana em Posse (GO)