Posse, 19 de julho de 2026
XVI Domingo do tempo comum – C
Leituras: Sb 12, 13.16-19/Sl 85 (86)/ Rm 8, 26-27
Evangelho: Mt 13, 24 -43

“O Reino dos Céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo” (Mt 13, 24)

 

Com sua pregação Nosso Senhor Jesus Cristo inaugurou o Reino dos Céus, um reino que não se confunde com os reinos deste mundo, nem na sua origem, nem nos seus meios, nem nos seus fins. O Reino dos céus é de origem divina, embora, em Cristo, estenda os seus efeitos também sobre a terra. Não é um reino que se instala pela força, pelo poder econômico, pela influência política, pelo poder militar, é um reino que se expande pelo amor, que atraí pelo testemunho dos que nele crê; é um reino de justiça, amor e paz. O fim do Reino dos Céus não é acumular poder sobre poder, riqueza sobre riqueza, seu fim é o homem redimido, santificado, é a glória de Deus.

Por todas estas características, o Reino dos Céus não se confunde com nenhuma estrutura política deste mundo, embora estas sejam chamadas a serem um reflexo, mesmo que imperfeito e pálido, do Reino dos Céus. De modo que os cristãos católicos, que tem a vocação política, são chamados a exercerem sua função pública pautados pelos valores da fé que professam e guiados pela luz do evangelho e da doutrina social da Igreja, para que a imagem deste mundo seja transformada pelo fermento do evangelho.

Para exemplificar a natureza do Reino dos Céus Jesus utiliza três imagens significativas: o homem que semeou a boa semente no seu campo, a semente de mostarda e o fermento que leveda a massa. Três realidades simbólicas por sim mesma aparentemente pequenas, quase invisíveis, mas com grande potencial para germinar, fermentar e fazer crescer.

Assim é o Reino dos Céus, cuja presença neste mundo é discreta, pequena, desprezada, rejeitada por muitos, suplicada por outros. Este reino se faz presente lá onde a vida é valorizada e acolhida da sua concepção até o seu fim natural, onde o perdão acontece, onde o amor se impõe a qualquer forma ódio e rancor, lá onde a fé é vivida com comprometimento e fervor, lá onde a partilha dos dons espirituais e materiais acontece, lá onde a vida em família é valorizada.

É este reino que o Senhor nos ensina a pedir no Pai Nosso: “Venha a nós o vosso reino”. Consequentemente, quem abre a boca na oração para pedir a vinda do Reino dos Céus deve também se comprometer com a construção deste reino. Não podemos pedir a vinda do Reino dos céus na oração, enquanto o rejeitamos com a vida, com o contratestemunho ou adotando posturas de vida que contradizem este mesmo reino. Quem pede a vinda do Reino na oração, também é chamado a gastar a vida para este reino se estabeleça. Se procuramos lançar no mundo boas sementes, se rejeitamos toda espécie de mal, pertencemos ao Reino dos Céus, embora ainda sejamos peregrinos neta terra.

Contudo, como destacou Jesus na Parábola do trigo e do joio, o Reino de Deus enfrenta resistência. Enquanto temos o Filho do Homem, semeador da boa semente, da semente da vida, da graça, da salvação; há o semeador do joio – o diabo – com suas propostas falseadas, enganosas, que procura sufocar a presença do Reino nos corações, na vida, nas estruturas públicas, nas famílias, nas instituições. Não nos enganemos, o mal presente no mundo não é apenas resultado da debilidade humana, o Diabo existe, e onde encontra abertura semeia suas sementes malignas, para matar, destruir, dividir, arrastar ao desespero.

Não é por acaso que a Palavra de Deus nos adverte: “Eis que o vosso adversário, o diabo, vos rodeia como leão a rugir, procurando a quem devorar. Resisti-lhe, firmes na fé, sabendo que a mesma espécie de sofrimento atinge os vossos irmãos espalhados pelo mundo” (IPd 5, 8-9). Por mais que o joio se esforce para se assemelhar ao trigo, será sempre joio. Por mais que o mal queira se apresentar como um bem será sempre um mal. O aborto, o suicídio, a contracepção, a sodomia, as uniões entre pessoas do mesmo sexo, a corrupção, a violência, a guerra, a injustiça, a incredulidade; por mais que se construam discursos para justifica-las serão sempre um mal. Joio será sempre joio, trigo será sempre trigo.

Contudo, o evangelho nos dá uma esperança, esta coexistência entre joio e trigo não será para sempre, chegará a hora da colheita, o fim dos tempos, na qual o trigo será recolhido no celeiro, enquanto o joio será lançado ao fogo. Por ora, se cremos no Reino dos Céus, nos cabe orar e vigiar, para não cair em tentação, para não sermos envolvidos pelo mal, pelas trevas do erro, sufocados pelo joio. Mas que brilhe em nossa vida a luz da verdade e do bem, que floresça entre nós o trigo da alegria, da esperança, da fé, da caridade.


Homilia redigida pelo Pe. Hélio Cordeiro, pároco da paróquia Sant’Ana de Posse.