“Aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres” (Cl 3, 2)

A segunda leitura de hoje nos fala da existência de dois tipos de homem: o homem velho, que aspira as coisas terrestres; e o homem novo, que aspira às coisas celestes (cf. Cl 3, 9-10). O que corresponde ao homem com Cristo e ao homem sem Cristo, ao homem antes e depois da sua conversão. Em nossa natureza humana carregamos sempre o homem velho, que herdamos de Adão; pela graça do batismo carregamos também o homem novo – Jesus Cristo.

Embora revestidos de Jesus Cristo pelo batismo, todos os dias somos tentados a deixar ressurgir o homem velho que se manifesta de muitos modos. Na ganância, na ambição, na sexualidade, que simplesmente levam as pessoas a se esquecerem das coisas eternas, na sua salvação, na sua conversão, no amor a Deus e ao próximo.

São Paulo não nos deixa enganar, ao apontar quais são as características do homem velho. É aquele que somente gasta sua vida, seu tempo, seu dinheiro, seus bens, correndo atrás das coisas terrenas. Como se prestasse a elas um verdadeiro culto. Ao seu dinheiro, sua fazenda, sua casa, sua chácara, seu divertimento. Quantos católicos que já substituíram definitivamente o altar da Eucaristia dominical pela churrasqueira do fim de semana, pelos excessos no comer, no beber, no entretenimento desregrado.

É próprio do homem velho ocupar todo o seu tempo entretido consigo mesmo. Na sua agenda não há espaço para Deus, para a oração, para o próximo, para o que é comunitário, procura cuidar somente do que é seu. Normalmente o homem velho é dado a imoralidades nas suas diversas formas, no vestir-se, no ouvir, no ver e no agir. É dado à impureza e paixões desordenadas, dominado pela cobiça e pela ambição. Insaciável nos seus prazeres.

O homem velho pensa que poderá encher-se de alegria e de felicidade com suas coisas, com seus afazeres, com sua gula, com sua ostentação. Ainda não foi capaz de entender que o que traz alegria e felicidade ao homem é o amor de Deus. O salmista nos indica que é o amor de Deus que sacia a sede de alegria do homem: “Saciai-nos de manhã com vosso amor, e exultaremos de alegria todo dia!” (Sl 89). Não somente todo dia, mas por toda a eternidade. A alegria que vem das coisas é temporal, dura alguns dias, meses ou anos. Enquanto que a alegria que vem de Deus é para sempre: “Também vós, agora, estais tristes; mas eu vos verei de novo e vosso coração se alegrará e ninguém vos tirará a vossa alegria” (Jo 16, 22).

O homem novo por sua vez, é aquele que sabe usar com prudência e sobriedade as coisas que passam, mas cujo esforço está voltado para alcançar as coisas do alto (Cl 3, 1). É aquele que reconhece que sua vida não está nas coisas, nos títulos ou no status que conquistou, mas que sabe que sua “vida está escondida, com Cristo, em Deus” (Cl 3, 3).

O homem novo conhece seus limites, seus defeitos, seus pecados, mas todos os dias procura “se renovar segundo a imagem do seu Criador, em ordem ao conhecimento” (Cl 3, 10). O homem novo ao ver suas posses crescerem e seus bens multiplicarem-se não se encarrega de construir novos celeiros. Pelo contrário, procura se comprometer com as necessidades dos outros, procura estender a sua mão a quem precisa.

O problema do homem rico da parábola de hoje não era ser rico ou ter obtido uma abundante colheita. O seu desvio se manifesta na destinação da sua colheita, da sua riqueza, como ele externa: “Meu caro, tu tens uma boa reserva para muitos anos, Descansa, come, bebe, aproveita!” (Lc 12, 19). Enquanto poderia ter pensado, agora posso ajudar os outros, posso partilhar os meus bens, agora tenho condições de estender a mão a quem precisa, agora posso contribuir com a causa do evangelho, com a causa dos pobres e desvalidos.

A nossa maior riqueza não está nas coisas, mas na vida que recebemos de Deus. Se somos apegados demais a esta vida que passa, com seus prazeres, suas comodidades, corremos o risco de não sermos felizes nem nesta vida nem na outra. É próprio do homem velho apegar-se a vida que passa e esquecer-se da vida que não passa. É próprio do homem novo servir-se da vida que passa, com sobriedade e desapego, porque seu coração está voltado para a vida que não passa – a vida eterna. A sua riqueza não são os seus bens, sua riqueza é Deus (cf. Lc 12, 21). Aqui fica a pergunta qual é a sua riqueza?

Pe. Hélio Cordeiro dos Santos
Formador do seminário maior N. S. de Fátima
Brasília – DF