É verdade de Fé que Deus criou o mundo. A criação divina não foi apenas um evento esporádico no horizonte da história, mas manifestação do amor infinito e imensurável de Deus, que não cessa de acompanhar e sustentar a obra da criação. O Catecismo da Igreja afirma que a partir da beleza do mundo ordenado, pode-se chegar ao conhecimento de Deus como origem e fim do universo (cf. CIC, 32). A beleza, por ter sua raiz em Deus, que é o Belo por excelência, tem, sem dúvida, a capacidade de nos aproximar do Sagrado, fazendo-nos cruzar a linha que nos separa da transcendência divina, sendo transformados por ela.

             A Igreja, Corpo Místico de Cristo, o Verbo feito carne, “o mais belo dos filhos dos homens” (Sl 44, 3), não cessa de transmitir ao mundo as maravilhas realizadas por Deus aos homens e de manifestá-las nas mais diversas formas de culto. A Igreja sempre prezou pelas artes, justamente pelo fato de elas serem manifestação da harmonia, da proporção, do equilíbrio e da perfeição presentes na criação divina e também explicitadas nas mais variadas formas de arte confeccionadas pelo homem.

            O Papa Bento XVI, ainda quando Cardeal disse que “a verdadeira apologia da fé cristã, a demonstração mais convincente da sua verdade, contra qualquer negação, são, de um lado, os santos e, do outro, a beleza que a fé gerou. Para que hoje a fé possa crescer, temos de levar a nós mesmos e aos homens com que deparamos a encontrar os santos, a entrar em contato com o Belo”. A Fé sempre gera beleza, que é também manifestação da santidade divina refletida nos santos. Neste sentido, a Liturgia surge como uma forma maravilhosa, mas também imprescindível de mostrar a beleza de Deus ao mundo.

            Não sem razão, a Igreja sempre incentivou e recomendou que suas liturgias fossem celebradas com dignidade e beleza. A Liturgia é uma das formas mais belas de demonstrar a grandeza de Deus, cuja beleza supera todo entendimento. Não celebramos a nós mesmos, mas o Senhor. A Liturgia não é nossa propriedade, mas pertence ao patrimônio da Tradição da Igreja. Por isso, quando se pede a utilização de alfaias que se destaquem por sua formosura e dignidade é para a manifestação da glória de Deus, e não dos ministros que levam à frente o ato litúrgico ou dele participam. Uma mentalidade que pretende suprimir qualquer manifestação de beleza tanto no templo quanto no culto, sob o pretexto de simplicidade ou de amor à pobreza, não é capaz de saber distinguir qual o lugar de Deus e qual o do homem. Bem disse o Cura D’Ars, ao falar sobre as nobreza das vestes sacerdotais: “Vejam o padre: vestido como um rei, mas humilde como um camponês”.

            Uma liturgia bem celebrada, que se vale da beleza exterior dos cantos, dos paramentos e da própria arquitetura do templo, para, mesmo de forma limitada, conduzir ao Belo, tem a capacidade de transformar o coração e a vida das pessoas. Um caminho para a tão querida “nova evangelização” certamente é a retomada do uso das artes para conduzir as pessoas para Deus. A própria liturgia pode e deve exercer este papel. Afinal, celebrar também é uma arte.

Ozias Xavier – Seminarista do 3º ano de Filosofia.