É O AMOR QUE DÁ VALOR A TODAS AS NOSSAS OBRAS

Posse, 21 de março de 2026

Na ótica cristã o amor não é um sentimento vago e passageiro, não é uma emoção momentânea, o amor é uma pessoa – o amor é Deus. Sem Ele nada seríamos, valor algum teriam as nossas obras. Vejamos o que nos diz São Paulo: “Ainda que tivesse o dom da profecia, o conhecimento de todos os mistérios e de toda a ciência, ainda que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tivesse a caridade, nada seria” (ICor 13, 2). Isto nos leva a compreender que as nossas obras boas encontram o seu fundamento em Deus e nos orientam para o seu louvor. Pois as obras boas que realizamos não são para o nosso engrandecimento, mas para o louvor de Deus, o que o evangelho sintetiza com as seguintes palavras: “Assim também brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus” (Mt 5, 16).

As obras, mesmo que boas, se não são feitas com amor, não tem alma, não tem sabor, não edificam. Pelo contrário, quando realizadas como expressão do amor de Deus por nós elas ganham uma dimensão de eternidade. Por exemplo, educar é uma obra belíssima, mas se não for realizada com amor, transforma-se num fardo pesado, insuportável, rancoroso, autoritário, sem direção. Portanto, deixemos que o amor estabeleça o sabor e a forma das nossas obras. Pois, sem amor, nada somos, sentido algum teria as nossas obras.

Quando realizamos as boas obras com amor, para o louvor de Deus, mesmo não vejamos os seus frutos, mesmo que ninguém nos elogie ou agradeça por as termos realizado, mesmo que sejamos mal pagos, em se tratando de uma atividade remunerada, nosso coração permanecerá sereno, porque vivemos o que devíamos fazer pela ração essencial – por amor. Isto garante a liberdade e a generosidade das nossas obras.

Se por um lado o amor dá sentido as obras boas que realizamos, por outro, as obras boas que realizamos revelam nossa adesão ao bem, a esperança de que o mundo pode ser melhor. Ninguém estaria vigilante para em tudo agir bem, realizar boas obras, se não cresce que o mundo pode ser melhor, se não cresce que suas boas obras, embora pequenas, discretas, simples, contribuíssem para que a face deste mundo seja renovada.

As obras boas, realizadas com amor, tem objetivamente dois fins: suscitar o louvor a Deus e promover o bem. Nos diz o padre Antônio Vieira: “Amar é querer bem àquele a quem se ama”[1]. Disto que decorre que realizar as boas obras com amor é expressão do querer bem a Deus, do querer bem ao próximo.

O empenho em realizar as boas obras com amor é inerente à vocação cristã, é um convite à imitação de Nosso Senhor Jesus Cristo, Ele que fez bem todas as coisas, porque Ele é o amor encarnado, o amor em pessoa. É belo quando a Palavra de Deus nos diz a respeito de Jesus: “Maravilhavam-se sobremaneira, dizendo: ‘Ele fez tudo bem…” (Mc 7, 37). Oxalá, chegando a hora de aposentar, ou de deixar este mundo, alguém possa olhar para nossa história e dizer ele fez bem todas as coisas!

Para fazer bem todas as coisas, mesmo em meio ao cansaço, incompreensões, limitações pessoais e materiais, é preciso ter um coração que saiba amar à exemplo do coração de Nosso Senhor Jesus Cristo que nos convida a ter um coração semelhante ao Dele: “Vinde a mim todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo e vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vossas almas, pois meu jugo é suave e meu fardo é leve” (Mt 11, 28 -30).

Por fim, o amor garante o empenho para realizar as obras boas com excelência. Não importa se a escola é desorganizada, vou me preparar para as aulas dando o meu melhor. Não importa se os alunos não estão interessados, por amor, vou procurar dar o meu melhor. Não importa se o Estado quer um ensino de faz de conta, devido meu compromisso com Cristo, vou dar o meu melhor. Não importa se já esta próximo da minha aposentadoria, vou dar o meu melhor, porque o que move e motiva é o amor.

[1] A. VIEIRA, Sermões, Lello & Irmão: Porto, Vol. 1, Tomo II, p. 376.


 

Artigo escrito pelo Pe. Hélio Cordeiro, Pároco da Paróquia Sant’Ana em Posse (GO)