Boa parte da vida da Igreja se ancora nos sacramentos que Jesus instituiu como meios de santificação do cristão. Eles são ordenados de tal forma que o fiel possa gradativamente crescer na fé, viver a vida em comunidade e estabelecer um vínculo de unidade com Jesus Cristo.
Todavia, os sacramentos são estruturados de modo que a essência de cada um deles seja formulada com base em princípios sólidos, os quais oferecem segurança ao cristão para viver sua fé de maneira madura, firme e convicta.
A primeira pergunta que se impõe diz respeito ao próprio termo: o que são os sacramentos?
De forma geral, os sacramentos são sinais eficazes da graça de Deus, instituídos por Cristo e confiados à Igreja para a sua administração. Eles realizam aquilo que significam. No entanto, no Catecismo da Igreja Católica, no número 840, encontramos uma descrição mais elaborada, afirmando que os sacramentos “constituem sinais e meios pelos quais se exprime e se robustece a fé, se presta culto a Deus e se realiza a santificação dos homens”.
Os sacramentos foram instituídos por Cristo, o que permite chamá-los de instituição de direito divino. Foram confiados à Igreja, isto é, não lhe pertencem como propriedade própria, mas são por ela administrados em favor dos fiéis. Eles são ações de Cristo na Igreja e também ações de Cristo com a Igreja. Por essa razão, a ação sacramental nunca pode ser compreendida como um ato meramente individual.
Os sacramentos são sinais e meios pelos quais se exprime e se robustece a fé. Como afirma a Escritura:
“A fé é a garantia das coisas que se esperam e a prova das realidades que não se veem” (Hb 11,1).
Assim, os sacramentos não apenas supõem a fé, mas também, “por palavras e coisas, a alimentam, fortalecem e exprimem” (Sacrosanctum Concilium, n. 59).
Por meio deles, o fiel presta culto a Deus, pois são sinais e meios que colocam o homem em relação direta com o Senhor, reconhecendo a sua majestade. Isso acontece pela mediação de Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote.
Ao mesmo tempo, por meio dos sacramentos o homem busca a santificação mediante a ação sacramental, que lhe possibilita participar da própria vida divina. Desse modo, os sacramentos constituem as ações litúrgicas por excelência.
Feita essa explicação acerca do termo “sacramento”, podemos agora passar à questão do hilemorfismo nos sacramentos.
Para avançarmos nessa reflexão, é necessário explicar o significado do termo hilemorfismo.
A noção de hilemorfismo é utilizada na teologia sacramental para explicar a relação entre matéria e forma nos sacramentos. Trata-se de uma teoria desenvolvida na tradição filosófica aristotélico-tomista. A palavra provém do grego:
“hylē” (matéria) e “morphē” (forma).
Segundo essa concepção, toda realidade material é composta por dois princípios: matéria-prima e forma substancial. A matéria não pode subsistir sem a forma; e a forma, por sua vez, é aquilo que determina a matéria.
Entretanto, essa teoria não foi simplesmente aplicada de modo direto aos sacramentos, pois, no caso sacramental, matéria e forma já existem previamente de maneira separada. Por isso, na teologia sacramental costuma-se falar em elementos determináveis e elementos determinantes.
Além disso, quando se aplicam os conceitos de matéria e forma aos diversos sacramentos, eles não possuem um significado absolutamente unívoco, pois cada sacramento possui sua própria configuração.
Na ação sacramental encontramos, portanto, um duplo elemento: matéria e forma.
A matéria é o sinal sensível utilizado na celebração sacramental. Nela distingue-se uma dupla realidade:
a) Matéria remota – o elemento sensível em si mesmo, utilizado no sacramento (água, pão, vinho, óleo etc.);
b) Matéria próxima – o uso concreto dessa matéria na ação sacramental (lavar com água, ungir com óleo, impor as mãos etc.).
A forma é o elemento determinante do sacramento. Ela consiste nas palavras sacramentais, normalmente chamadas de fórmula sacramental, pelas quais o sentido da ação é explicitado.
Em síntese, embora exista certa ambiguidade na aplicação da teoria do hilemorfismo aos sacramentos, essa dificuldade se dissipa quando se compreende que a palavra sacramental não é uma mera declaração, mas parte constitutiva do próprio sinal sacramental, que, unido à matéria, realiza aquilo que significa. Assim, podemos afirmar, com esta frase que resume perfeitamente o hilemorfismo sacramental:
“Accedit verbum ad elementum et fit sacramentum” _ “A palavra une-se ao elemento e faz-se o sacramento” (Santo Agostinho).

Artigo escrito pelo Padre Joacir d’Abadia, Filósofo e autor de 24 livros publicados / Pároco da Paróquia São José Operário/Formosa-GO-Diocese de Formosa-GO




