Posse, 18 de outubro de 2026
XXIX Domingo do tempo comum – A
Leituras: Is 45, 1.4-6/Sl 95 (96)/ Its 1, 1-5b
Evangelho: Mt 22, 15-21
“Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22, 20)
O Oração da Coleta da missa de hoje colocou em nossos lábios dois pedidos profundamente significativos e necessários: a graça de um coração disponível para obedecer a vontade de Deus e a de um coração que sirva a Deus com sinceridade. Estas duas disposições constituem um autêntico programa de vida cristã e, assumidos com afinco, nos colocam sob a soberania de Deus em nossas vidas.
Sejamos, pois, servos de Deus, não permitamos ser subjugados por nenhum outro senhor: nem dinheiro, nem ideologia politíco-partidária, nem fama, nem poder. Que o Senhor seja o guia do nosso julgar, pensar e agir. Que a vontade de Deus expressa nos seus mandamentos, no evangelho, importe na condução da nossa vida e das escolhas que fazemos. Somente assim poderemos eliminar toda a maldade, malícia, cobiça do nosso coração e das nossas ações.
Que não nos aconteça vivermos na hipocrisia, aparentando ser o que não somos; aparentando crer, quando na verdade não cremos. Não é por acaso que, na cena do evangelho, o Senhor repreende os fariseus e herodianos, que veem até Ele com palavras bonitas nos lábios, mas com o coração entranhado de maldade. Nas suas palavras traziam uma aparente bondade e verdade, enquanto que seus corações estavam dominados pela maldade. Chamam Jesus de mestre com a boca, enquanto no seu coração querem mata-Lo.
Talvez hoje estejamos num contexto ainda pior, no qual, muitas pessoas, instrumentalizadas por ideologias político-partidárias diversas, perderam o senso da verdade, da caridade, da justiça, da mansidão. Ao ponto que o esgoto da internet está saturado de tanto conteúdo, de tantas vozes, anônimas e conhecidas, vociferando ódio, demonizando pessoas, sem sequer conhece-las, ‘separando’ o joio do trigo, querendo dividir o mundo entre maus e bons. Como cristãos católicos não podemos seguir por este caminho, que é fatal e destrutivo.
No evangelho Jesus convida os fariseus, poder religioso, e os herodianos, poder político, que juntos queriam colocar Jesus em dificuldade, a dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Não estaríamos em semelhante situação, se estivéssemos dando a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, se o discernimento quanto ao devido lugar do poder político e do poder religioso estivesse devidamente claro.
Quantos que, nestes nossos tempos convulsos, somente enxergam ‘César’ e em nome dele destila palavras de ódio, calúnias, mentiras contra familiares, amigos, irmãos na fé, contra os pastores da Igreja, sem o menor discernimento, sem a mínima caridade. Quando o optamos pelo ódio e pela violência estamos dando tudo a César e nada para Deus. Nisso, todos saímos perdendo.
Quão válida e necessária em nossos dias as palavras atribuídas a Santo Agostinho: “Nas coisas essenciais, unidade; nas coisas discutíveis, liberdade; em todas as coisas caridade”. Estas palavras são suficientes para nos levar a entender que pelo fato de alguém divergir de nós em questões de política-partidária, ela não se torna necessariamente minha inimiga. Uma vez que questões partidárias se se circunscrevem entre as coisas discutíveis. Não nos transformemos mutuamente em inimigos por aquilo que é discutível, continuemos irmãos por aquilo que nos une – Cristo. Não é isto que dizemos na saudação de paz na Santa Missa: “O amor de Cristo nos uniu!”.
Não podemos destruir o que é essencial: a fé, a família, a comunidade, a Igreja, as amizades, em detrimento daquilo que é discutível. Precisamos aprender a respeitar aqueles que divergem de nós em questões, discutíveis, como o é as distintas posições partidárias. Se não compreendermos isso, tornar-nos-emos todos escravos de César, enquanto abandonamos Cristo. substituindo “O amor de Cristo nos uniu” por a ideologia política nos dividiu e nos ensinou a odiar-nos mutuamente.
Caso continuemos a acirrar os ânimos por questões discutíveis, e são tantas, estaremos criando um contexto muito difícil para se viver. Quem é servo de Jesus Cristo, não pode normalizar o ódio, a calúnia, a rivalidade, por qualquer pretexto que seja. Isto seria absolutamente contrário à natureza do evangelho.
À César o que é de César, à Deus o que é de Deus. Àqueles que nos governam o respeito, a cooperação naquilo que é justo, a nossa oração (ITm 2, 1-2) e, quando preciso, a crítica construtiva, a divergência respeitosa. Enquanto que a nossa submissão é somente a Deus, porque Ele é um somente: “Eu sou o Senhor, não há outro” (Is 45, 6). Quem se faz vassalo de César, não pode ser servo de Jesus Cristo. Não é Cristo que está a serviço de César, este é quem deve estar a serviço de Cristo.
Homilia redigida pelo Pe. Hélio Cordeiro, Pároco da Paróquia Sant’Ana em Posse (GO)




