Aumenta a nossa fé!” (Lc 17, 5)

No evangelho de hoje os discípulos fazem um pedido ao Senhor que todos os discípulos precisam repetir muitas vezes ao longo da vida: “Aumenta a nossa fé!” (Lc 17, 5). Todos recebemos a fé através da Igreja no dia do batismo. Esta fé nos inseriu na vida de Deus, nos tornou filhos de Deus, nos fez servos de Jesus Cristo, membros de sua única Igreja, herdeiros do céu.

Assim como o útero materno nos gerou para a vida neste mundo, o útero da Igreja – a pia batismal – nos gerou para a vida eterna. Porém, o dom da fé, ali recebido, precisa ser alimentado com a Palavra de Deus, com a oração, com os demais sacramentos, sobretudo a confissão frequente e a Eucaristia, o “mistério da fé”.

Fé que não se for alimentada está condenada a morrer, a enfraquecer-se. O aumento da fé é algo a ser pedido constantemente a Deus na oração. Como os discípulos de outrora ousaram pedir. O fundamento essencial da nossa fé é crer no testemunho que Jesus Cristo da de Deus na sua condição de filho. Ter fé é crer na divindade de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. É aderir a Ele com a vontade e com a inteligência.

A este respeito Columba Marmion afirma: “Crer que Jesus é o Filho de Deus, que Ele é Deus, é a primeira condição para ser contado entre as suas ovelhas, para ser agradável ao Pai. E é isto mesmo o que o Pai reclama de nós. O cristianismo não é outra coisa senão a aceitação, sem todas as suas consequências doutrinais e práticas, ainda as mais remotas da divindade de Cristo na Encarnação”1. Ter fé é, pois, adesão incondicional à pessoa de Jesus Cristo, sem o qual não podemos ter a vida eterna. Porque “Jesus Cristo é o único caminho, a única verdade, a única vida. Quem não seguir por este caminho, afasta-se da verdade e é em vão que procura a vida”2. Assim, aumentar a fé é aumentar cada dia mais nossa adesão a Jesus Cristo e à sua vontade.

Logo, o crente, o discípulo de Jesus é aquele que procura fazer e viver aquilo que o seu Senhor quer. É alguém que não segue sua própria lei, sua própria vontade, mas faz aquilo que deve fazer: “Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer” (Lc 17, 10). Quem tem fé, quem se fez servo se ocupa em fazer e viver as coisas do seu Senhor.

De modo que ter fé não se reduz a uma simples expressão verbal: “tenho fé”. Isto é dizer ter fé, tê-la de fato é outra realidade. A fé implica comprometimento com Jesus Cristo, com sua única Igreja, com o próximo, com seu evangelho, com sua missão continuada pela Igreja. O que se traduz nas quatro responsabilidades do crente diante da sua fé: professá-la (Creio), rezá-la (Pai-Nosso), vive-la (os mandamentos) e celebrá-la (os sacramentos). Sem estes quatro pilares não se pode falar da existência da fé em sentido próprio.

Quem professa as verdades da sua fé sem medo, reconhece sua condição filial diante de Deus na oração constante, sobretudo na oração do Pai-Nosso. Celebra a sua fé participando com entusiasmo na vida litúrgica da Igreja, tendo como ponto alto a Eucaristia dominical. Alimenta-se da graça de Deus pelos sacramentos, sem os quais a fé desfalece.

Onde vem a faltar estes quatro pilares da fé, se instalam os pecados contra a fé: a heresia, o cisma e a apostasia. A heresia que consiste na “negação pertinaz, após a recepção do Batismo, de qualquer verdade que se deve crer com fé divina e católica, ou a dúvida pertinaz a respeito da verdade” (CCE 2089). Este é um dos pecados contra a fé mais difundidos em nosso tempo. Aqui basta lembrar quantos católicos que negam o seu batismo submetendo-se a ritos estranhos em outras denominações. O cisma que consiste na “recusa de sujeição ao Sumo Pontífice ou da comunhão com os membros da Igreja a ele sujeitos” (CCE 2089). E a apostasia, “repúdio total da fé cristã” (CCE 2089). Também um pecado contra a fé muito comum em nossos dias, são muitos que os abandonam Cristo para seguir os ídolos mortos deste mundo.

Diante destas ameaças ao dom da fé, nunca é demais pedir ao Senhor: “Aumenta a nossa fé”. Ela aumenta, cresce quando cresce nossa obediência a Deus e aos seus mandamentos. Quando solidificamos nossa adesão a Jesus Cristo e a sua única Igreja.

Pe. Hélio Cordeiro dos Santos
Formador do seminário maior N. S. de Fátima
Brasília – DF