Não se deixem levar pelo mar em tempestade! Pelos ventos que sopram as árvores dos nossos quintais ou pelos ventos que derrubam as árvores dos canteiros das nossas avenidas. Não se permitam, queridos filhos, ser engambelados pelas mentiras que chegam até nós dizendo que somos fortes, que não precisamos das pessoas se temos um bom salário ou uma boa reserva financeira. São Paulo, tão sabiamente já orientava os seus dizendo que “a figura deste mundo passa” (ICor 7,31). Tudo nesta vida é passageiro. O carro que era o desejo dos homens há 30 anos, hoje é peça de museu ou, de longe, apazigua o ego de uns poucos colecionadores. Tudo passa, como o sopro.
Quanto mais o humano afasta do seu relacionamento com Deus, mais ele vai poder encantar e se maravilhar pelas criaturas. Um relacionamento assim quando se opta pelas criaturas tudo é pensado pela glória humana. Pensa-se naquilo que podem dar mais glória ao humano. São como os casamentos que vimos acontecer ultimamente.
Casamento com flores naturais, anjos tocando flautas, arranjos mais altos que o ser humano, tapetes de seda, uma cerimônia impecável, candelabros reluzentes, roupas nas mais finas costuras, lustres únicos, bolo gostoso de se ver. Tudo em exagero. O exagero das flores, dos anjos, dos arranjos, dos tapetes, dos candelabros, das roupas, dos lustres e do bolo. Um exagero inominável? Definitivamente não. Não nos iludamos. Somos humanos, criaturas débeis. Este é, portanto, um exagero humano. Não nos adianta contemplarmos a beleza das criaturas e seus feitos, mas esquecermos o primordial que é Deus, o criador de tudo.
O Beato Eduardo Popper (1890-1924), sacerdote Belga, nos seus últimos dias de vida, nos deixou um ensinamento a respeito das preocupações humanas: “Para que serve lindos móveis com cabeça de leões e anéis de cobre? Dentro de trinta anos estarão no quarto dos nossos herdeiros! Que são os conhecidos e os amigos deste mundo? Quinze dias após a vossa morte, já andareis fora da lembrança e do coração deles, apesar de, enquanto vivíeis, vos terem custado muito e muitas dores de cabeça. Que são louvor e consideração? Fumaça vã que nos inebria ou impede, mas nos faz mais mal do que bem” (Carta aos Sacerdotes).
Dom Henrique Soares nos ensina: “Ele quis ser concretamente um de nós, alguém de carne e osso, de sonho e de esperança, Ele quis ser, Ele foi Jesus de Nazaré, um judeu de raça, de cultura e de religião, que Se formou na estreiteza do seio materno, que cresceu na estreiteza de uma pátria insignificante, que amadureceu na estreiteza de um povinho de vila do interior, que trabalhou num meio limitado e pouco inteligente, que não sabia direito o grego nem o latim, as línguas importantes da época, que falava um dialeto, o aramaico, que sentiu a dureza das forças de ocupação de seu pai, que conheceu o cansaço, a fome, a sede, a saudade, a angústia, a tristeza e as lágrimas pela morte do amigo, a alegria da amizade, o temor, as tentações e o pavor da morte e que passou pela noite escura do abandono de Deus”.
O homem é buscado, no meio da sociedade, por Deus que vem à baixeza da humanidade. “A escritura é a chave de acesso ao coração de Deus”. É a melhor vacina contra a espiritualidade vazia de sentido divino. Sem Deus na Escritura o povo não sai de sua velhice radicada no indefinido.
No Motu Proprio “Aperuit illis” o Papa Franciso que estabelece o III Domingo do Tempo Comum como o “Domingo da Palavra” e nos ensina que “sem a Sagrada Escritura, permanecem indecifráveis os acontecimentos da missão de Jesus e da sua Igreja no mundo”. Nos diz que, segundo São Jerónimo: “a ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo”. Ainda nas palavras de Santo Efrém: “Quem poderá compreender, Senhor, toda a riqueza duma só das tuas palavras… Escondeu na sua palavra todos os tesouros, para que cada um de nós se enriqueça em qualquer dos pontos que medita”.
Temos um “Deus conosco” (Mt 1,23). Ele veio ao homem de forma misericordiosa. Se dobra à fragilidade humana que, ferida e machucada pelas decisões erradas, deve reconhecer a definitiva amorosidade de Deus pelos seus.
Santo Elredo de Rieval, no século XII já dizia: “Sim, Deus está conosco! Antes era “Deus acima de nós”, “Deus contra nós”, mas hoje Ele é Emanuel, “Deus conosco”. Conosco em Sua natureza e em Sua graça. Conosco em nossa fraqueza, conosco em Sua misericórdia. Conosco por amor, conosco por piedade, conosco por ternura, conosco por compaixão!”.
Assim, quem aceitar este relacionamento, esta entrega entre Deus e a humanidade como uma proposta de salvação em Jesus Cristo serão reconhecidos como os humildes e os pobres escolhidos pelo Senhor. Tudo além disso, meus irmãos, “a figura deste mundo passa” (ICor 7,31), não se sustenta. Por isso Jesus Cristo faz-nos um convite tão novo e decisivo, se realmente queremos ter um relacionamento com a Divindade, Ele diz: “Segui-me e eu farei de vós pescadores de homens” (Mc 1,17).

Artigo redigido pelo Padre Joacir d’Abadia, Pároco da Paróquia São José Operário em Formosa-GO, Filósofo, autor de 27 livros publicados, Especialista em Docência do Ensino Superior




