“Vós sois o sal da terra… Vós sois a luz do mundo” (Mt 5, 13-14)

Hoje o evangelho nos oferece duas imagens que indicam o que significa ser cristão, ser discípulo de Jesus Cristo: o sal e a luz. O sal é o elemento que dá sabor aos alimentos, que tempera, que o torna agradável ao paladar. A luz dissipa as trevas, amplia a visão, ilumina a escuridão.

Ora, “Vós sois o sal da terra”, sois discípulos do Senhor. Ser discípulo, em sentido evangélico, não é andar atrás do Mestre, mas é ser e viver como o Mestre: “Para o discípulo, basta ser como o seu mestre” (Mt 10, 25). Ser sal, ser discípulo, ser Alter Christus, outro Cristo. Procurando, em tudo, dar sabor e sentido à vida dos outros. Permitir-se ser consumido de amor a Deus e ao próximo. Mesmo na invisibilidade, realizar o bem, repartir o pão com o faminto, acolher os pobres e peregrinos, vestir quem está nu (cf. Is 58, 8).

É com estes gestos de caridade que o discípulo se torna sal diante do mundo. Deixando-se atrair pelo desejo de aliviar as dores e as necessidades do outro. O sal, além de dar sabor aos alimentos, funciona como um conservante, impedindo que estes venham a perecer muito rápido. Logo, ser sal, ser discípulo, passa pelo empenho em cuidar daqueles que estão perecendo por toda e qualquer espécie de mal. Sem esta postura a vida do discípulo de Jesus se torna insossa, sem sabor, vazia.

Ser discípulo é também ser luz: “Vós sois a luz do mundo” (Mt 5, 14). Luz que ilumina o mundo com gestos de serviço, de entrega, de doação. O discípulo luz é aquele que não se vale do espírito de dominação ou de opressão sobre os outros. Uma tentação sempre presente na vida do ser humano. Somos sempre inclinados a querer oprimir os outros: com gestos e com palavras.

Oprimir os outros se torna uma atitude ainda mais abominável quando ela é realizada ‘em nome de Deus’. A opressão, seja de que natureza for, é uma perversa inversão do evangelho. Que as famílias e comunidades cristãs, sejam ambientes de serviço, de doação, de partilha, de comunhão. Nunca lugar de opressores e de oprimidos, mas lugar de irmãos.

Ser discípulo luz requer também o abandono dos “hábitos autoritários e a linguagem maldosa” (Is 58, 9). A autoridade e a linguagem dos discípulos de Jesus é a caridade. Que contrapõe-se ao espírito mundano de dominação de uns sobre os outros. O bispo, o padre, estão diante da comunidade não para domina-la, mas para servi-la. O coordenador, desta ou daquela pastoral, está diante dela não para dominá-la, mas para servi-la. Assim também o governante diante do seu povo, o pai e mãe de família diante dos seus.

O espírito de dominação e de maledicência é um veneno que corrói a fraternidade. Destruindo a possibilidade da vida comunitária. Estamos vivendo num tempo no qual a linguagem maldosa tem dominado todos os ambientes. Uma linguagem não somente maldosa mas violenta. Traduzida em discursos de ódio, desprezo, contra pessoas, instituições, estampada nos jornais, revistas, TV, web. Discursos de ódio que depois se traduz em atos violentos, como os que constantemente tem sido perpetrados contra os cristãos e a outros grupos, em diversas partes do mundo.

Por fim, o discípulo sal e luz do mundo substitui a prática da opressão pelo empenho em dar ao outro a sua saudável autonomia. Substitui o autoritarismo pelo serviço e pela oblação da própria vida. Substitui a linguagem maldosa e violenta, pela verdade que liberta, pela ternura. Fazendo assim que sua luz brilhe diante dos homens (cf. Mt 5, 16).

Pe. Hélio Cordeiro dos Santos
Formador do seminário maior N. S. de Fátima
Brasília – DF


Leituras: Is 58, 7-10 / Sl 111 (112) / ICor 2, 1-5
Evangelho: Mt 5, 13-16